O QUE O ALL-STAR GAME E A CONSOLIDAÇÃO DA MLS PODEM ENSINAR AO BRASIL

Por Leo Parrela e Pedro Luis Cuenca Na última quarta-feira (1), a Major League Soccer realizou mais uma edição do All-Star Game, dessa vez com as estrelas da liga encarando a Juventus, no lotado Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta. Os mais de 72 mil presentes, que esgotaram os ingressos, colocariam o público deste jogo entre os […]

Por Leo Parrela e Pedro Luis Cuenca

Na última quarta-feira (1), a Major League Soccer realizou mais uma edição do All-Star Game, dessa vez com as estrelas da liga encarando a Juventus, no lotado Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta. Os mais de 72 mil presentes, que esgotaram os ingressos, colocariam o público deste jogo entre os maiores da história da competição. Além de chamar clubes europeus para os americanos acompanharem de perto, a partida ainda envolve outros diversos fatores que chamam a atenção e refletem a boa organização da liga como um todo.

Para que os Estados Unidos pudessem, de fato, sediar a Copa do Mundo de 1994, a FIFA exigiu a criação de uma liga profissional no país. O nome foi definido somente em 1993, as equipes surgiram já depois do torneio, em 1995, e o jogo inicial aconteceu apenas em 1996, oito anos depois da proposta da entidade máxima do futebol mundial. As dúvidas pairavam sobre o campeonato, pois o futebol continuava sendo algo estranho para os americanos, mesmo com a boa campanha do país na Copa de 1994 e dos astros trazidos para a primeira temporada.

O jeito americano de comandar o futebol não foi muito bem conduzido nos primeiros anos. Estrelas foram trazidas de países latinos, os bons jogadores americanos – incluindo Alexi Lalas, Tony Merola e Eric Wynalda – ficaram para ajudar a estabelecer o esporte, mas nada funcionava. Usando enormes estádios de faculdades, preparados para a prática de futebol americano, os baixos públicos da liga ficavam ainda mais notáveis. Outros erros crassos eram coisas não praticadas ao redor do mundo, como o relógio na regressiva, pausa no tempo quando a bola saía de campo e, claro, os famosos ‘shooutouts’ em casa de empate no tempo regulamentar. Nem mesmo surgimento de bons jogadores – como Landon Donovan, DaMarcus Beasley e Eddie Pope – deram vida para a MLS.

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Os muitos erros de organização fizeram com que a continuidade da Major League Soccer fosse colocada em risco. A fraca campanha da seleção americana na Copa de 1998, terminando na última posição, também não ajudou na consolidação do esporte no país. A mudança na posição de comissário da liga, em 1999, foi uma tentativa de chacoalhar as coisas, com a chegada de Don Garber, um executivo da NFL. Mudanças no jogo foram feitas, mas isso não bastou. Entre 2001 e 2002, a liga perdeu duas equipes e ficou com apenas 10 franquias. Além disso, uma estimativa apontava uma perda de aproximadamente 250 milhões de dólares desde a criação do torneio, aumentando o risco de falência e encerramento das operações.  A boa Copa em 2002, chegando até as quartas de final, o país decidiu apostar mais no talento dos jogadores americanos e investir na formação de atletas desde os primeiros anos de escola, criando um mercado atraente e conseguindo diversas equipes ao redor dos Estados Unidos.

Vários jogadores saíram para clubes europeus, enquanto latinos em fim de carreira chegaram na MLS. A grande mudança foi em 2007, com a contratação de David Beckham pelo Los Angeles Galaxy. Desde então, o mercado se expandiu, contratos de televisão aumentaram de valor, novas contratações de peso chegaram e o mundo passou a olhar com mais atenção para o campeonato, mesmo que ainda sem grande interesse. Ao chamar equipes europeias para enfrentar seus atletas, a MLS coloca seus jogadores em destaque para todo o mundo, com a chance de eles enfrentarem equipes de alto nível.

E é principalmente o caminho nessa ‘segunda metade da vida’ que impressiona. Em relativamente pouco tempo, a MLS conseguiu se consolidar como um produto completamente rentável para o mercado americano e mundial. Se o número de franquias já chegou a 10 (2002), atualmente são 23 e com mais três já garantidas para um futuro próximo. A organização e os rendimentos da liga apenas crescem com o passar do tempo.

O Jogo Das Estrelas é a consolidação de um modelo de negócios que prosperou durante os últimos anos. E, particularmente, todo o sistema operacional é um tapa na cara do futebol brasileiro. Não pela ideia de montar um jogo de liga das estrelas, que não faria sentido aqui em função do fator cultural e de como o produto futebol é consumido, mas sim pela valorização da marca. A internacionalização da MLS com a chegada de grandes nomes, o interesse criado em áreas que praticamente não existia futebol.

O curioso é observar como uma liga, que tem singelos 23 anos de existência, já consegue ser tão organizada e o nosso futebol ainda sofre. O futebol nos Estados Unidos, em média, já leva mais pessoas para os estádios do que o hockey no gelo e basquete, esportes mais tradicionais e mais consolidados no mercado americano. A média de público nos estádios foi de 22.113 pessoas, enquanto os jogos da Série A aqui levaram, em média, 17.616.

O modus operandi da MLS é eficiente desde os usos nas redes sociais – Instagram e Twitter, principalmente, até as definições sobre gastos da liga, envolvendo teto salarial e a obrigação em desenvolver as categorias de base dos clubes – fora o sistema de recrutamento, desde 2008. São alternativas pouco exploradas, para dizer o mínimo, em comparação com o Brasileirão. Esse engajamento na internet é feito de maneira intensa pelos clubes, sem que a CBF consiga organizar ou realizar um material que seja interessante para as milhões de pessoas que consomem o Campeonato Brasileiro.

O ciclo de fortalecimento da MLS pode ter uma consolidação na Copa de 2026. Os Estados Unidos serão uma das sedes da Copa do Mundo (junto de México e Canadá) e a intenção é que o nível do jogo e a popularidade sejam ainda maiores. “Faremos do futebol um esporte notável nos Estados Unidos”, afirmou Carlos Cordero, presidente da US Soccer. Em estudo divulgado pela Forbes do México, 12 dos 50 clubes mais valiosos da América são da MLS. O Los Angeles Football Club, fundado em 2014, é mais valioso que praticamente todos os clubes brasileiros – é o terceiro da lista, atrás apenas de Corinthians e Flamengo.

Enquanto a arrogância não permitir o aprendizado, continuaremos batendo com a cabeça na parede e apenas vendo outras ligas se desenvolverem, criarem produtos e marcas internacionais e o nosso campeonato nacional perder importância e qualidade. Aos poucos vamos percebendo que o resultado 7 a 1 foi um acaso, mas o processo que levou à ele não – e não há mudanças no panorama.

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