O sucesso do Sporting Cristal no equilíbrio entre experiência e juventude

A Máquina Celeste levantou a taça do Campeonato Peruano pela 20ª vez em sua história, confiando na solidez de nomes consagrados da equipe e, na mesma medida, dando espaço a garotos formados em casa

O Sporting Cristal é o campeão peruano de 2020. Depois de dois anos, a máquina celeste voltou a erguer a taça nacional, trilhando um caminho de muita consistência e com pitadas de emoção. A derrota para o Ayacucho na decisão do Clausura, por exemplo, forçou uma nova série de jogos contra os Zorros, na semifinal do torneio, para definir quem seria o adversário do Universitário na grande decisão. Tal contratempo não foi suficiente para abalar uma campanha que soube misturar experiência e frescor para dominar os adversários.

Encontrar este balanço foi uma das principais chaves para o técnico Roberto Mosquera conseguir executar seu modelo de jogo e poder entregar um bom rendimento, como foi visto sobretudo na parte ofensiva. Nos 28 jogos da fase classificatória, foram 16 vitórias, 8 empates e 4 derrotas, com 58 gols marcados (o melhor ataque do Peru com alguma distância) e 32 sofridos.

E um dos pilares para o título, sem dúvidas, foi o centroavante Emanuel Herrera. Assim como em 2018, o argentino de 33 anos viu as redes de maneira constante. A volta por cima após a grave lesão que o tirou dos campos por 7 meses no ano passado não poderia ser de melhor forma. Como homem terminal do 4-3-3, contribuiu com 20 gols e 8 assistências, além de oferecer a profundidade e a sustentação na frente para gerar espaços para os meias na intermediária.

Mas, claro, Emanuel Herrera não renderia sozinho sem parceiros confiáveis em seu entorno. E ao seu lado, Washington Corozo proporcionou uma dobradinha altamente produtiva nos metros finais do campo. O equatoriano de 22 anos chegou no começo de 2020 a Lima, logo após participar do título da Sul-Americana em 2019 com o Independiente Del Valle. Apesar de não ter sido um titular regular por lá, com a camisa celeste a história foi diferente. Corozo se tornou uma peça-chave no 4-3-3 de Mosquera na ponta-esquerda, desequilibrando individualmente com velocidade para superar os marcadores, visão e precisão nas assistências, sendo o principal garçom do campeonato com 11 passes para gol.

No meio-campo, esta combinação de experiência e juventude fica ainda mais evidente. Ao longo de todo Peruano, mas principalmente nesta reta final, o trio formado pelo promissor Gerald Távara (21), por Horácio Calcaterra (31) e pelo capitão Jorge Cazulo (38). Atuando como interiores, Calcaterra e Cazulo demonstraram muita potência para chegar ao ataque e explorar os espaços gerados pela profundidade de Herrera, e pela amplitude oferecida pelos pontas. Os movimentos de ruptura, em especial de Cazulo, foram fundamentais em várias situações. Ao arrancar em direção à área para receber a bola, somado à movimentação de Herrera para sair da referência, criou diversas oportunidades quebrando a linha de marcação.

Ao seu lado, Calcaterra se destacou por ser um ótimo temporizador de jogadas. Sem infiltrar tanto quanto Cazulo, permanecia na intermediária ofensiva ditando o ritmo da construção e sendo vital no controle da posse pelo Sporting Cristal, surgindo na entrada da área adversária para conferir a segunda bola em alguns momentos. Por conta disto, se destacou em dois itens no Campeonato Peruano: foi o segundo jogador com mais passes (1511) e o que mais atraiu faltas (85 sofridas). Na base das jogadas, apesar de ainda novo, Távara exibiu tremenda tranquilidade para iniciar os momentos de ataque e ótima leitura para se projetar em campo mais avançado. Além disto, foi o principal responsável por acionar seus companheiros no terço final do gramado com passes longos e de ruptura. Em 2020, embora não tão preciso, foi o maior lançador do torneio (231 lançamentos) e o terceiro com mais passes para o último terço (301).

O sistema defensivo também não fugiu desta mescla. No gol, Roberto Solís (22) e Emile Franco (20) foram os arqueiros que figuraram entre os titulares ao longo do ano. A dupla de zaga com o chileno Omar Merlo (33) e Gianfranco Chávez (22) não foi exatamente a mais segura, mas soube prover boa saída e muita firmeza nos momentos mais decisivos, acompanhados por Nilson Loyola (26) e Johan Madrid (24) nas laterais.

O Campeonato Peruano serviu ainda para oportunizar vários garotos provenientes das categorias de base, vindos do banco de reservas em meio aos jogos ou até mesmo atuando como titulares em partidas pontuais, onde os titulares precisavam de descanso. Os laterais Carlos Lora (20) e Carlos Huerto (21), o zagueiro Rafael Lutiger (19), os meias José Inga (21), Jesús Castillo (19) e Diego Soto (19), e os atacantes Christopher Olivares (21), Jhon Marchán (21) e Percy Liza (20) foram alguns dos que receberam chances, começando a pavimentar o caminho celeste para uma possível transição.

Classificado para a Libertadores em 2021, o Sporting Cristal tentará dar um salto em seu nível continental e aplicar maior competitividade contra adversários, em tese, de maior força. Há 16 anos os cerveceros não sabem o que é chegar em uma fase de mata-mata na competição, e aproveitar o embalo fornecido por uma estrutura coletiva sólida – com alguns pontos a serem ainda aprimorados –, pela boa campanha no Peruano e por esta nova leva de jovens pode ser o fator preponderante para superar este velho fantasma no ano que bate à porta.

Compartilhe

Comente!

Tem algo a dizer?

Dimitri Barcellos

Últimas Postagens

A onda tecnicista na função do auxiliar técnico de futebol
Jonatan Cavalcante

A onda tecnicista na função do auxiliar técnico de futebol

0 Comentários
Friendly #1 | Imaginar e construir o futuro, a habilidade fundamental do século XXI
Footure

Friendly #1 | Imaginar e construir o futuro, a habilidade fundamental do século XXI

0 Comentários
Surpresa e tradição: os classificados para as quartas do futebol masculino na Olimpíada
Caio Nascimento

Surpresa e tradição: os classificados para as quartas do futebol masculino na Olimpíada

0 Comentários
Osimhen, Simy, e a problemática das narrativas sobre jogadores africanos
Caio Bitencourt

Osimhen, Simy, e a problemática das narrativas sobre jogadores africanos

0 Comentários
O que esperar do Real Madrid para os próximos anos com Carlo Ancelotti?
Bruna Mendes

O que esperar do Real Madrid para os próximos anos com Carlo Ancelotti?

0 Comentários
O que explica as goleadas do Flamengo com Renato Gaúcho?
Gabriel de Assis

O que explica as goleadas do Flamengo com Renato Gaúcho?

0 Comentários
Como o Vojvodismo transformou o Fortaleza em protagonista no futebol brasileiro?
Jonatan Cavalcante

Como o Vojvodismo transformou o Fortaleza em protagonista no futebol brasileiro?

0 Comentários
God Save the Game #34 | A janela de transferências da Premier League 21/22
Gabriel Corrêa

God Save the Game #34 | A janela de transferências da Premier League 21/22

0 Comentários
Felipão chega entregando o de sempre: segurança e resultado
Gabriel de Assis

Felipão chega entregando o de sempre: segurança e resultado

0 Comentários
Guia do futebol masculino na Olimpíada de Tokyo 2020: parte 2
Caio Nascimento

Guia do futebol masculino na Olimpíada de Tokyo 2020: parte 2

0 Comentários
A Itália ainda pode crescer após o título da Euro?
Caio Bitencourt

A Itália ainda pode crescer após o título da Euro?

0 Comentários
Guia do futebol masculino na Olimpíada de Tokyo 2020: parte 1
Caio Nascimento

Guia do futebol masculino na Olimpíada de Tokyo 2020: parte 1

0 Comentários
O complicado início de Diego Aguirre no Internacional
Gabriel de Assis

O complicado início de Diego Aguirre no Internacional

0 Comentários
Rodrigo De Paul: o meia com DNA de Simeone e Atlético de Madrid
Bruna Mendes

Rodrigo De Paul: o meia com DNA de Simeone e Atlético de Madrid

0 Comentários
A Inglaterra superou seus traumas e, agora, se permite sonhar
Lucas Filus

A Inglaterra superou seus traumas e, agora, se permite sonhar

0 Comentários