Paulo Sousa: “O futebol é baseado no espaço e tempo”

Em 2019, enquanto era técnico do Bordeaux, Paulo Sousa foi convidado pela revista Onze Mondial para ser o entrevistado da coluna “Instant Tactique”. O resultado da conversa foi uma rica entrevista sobre sua transição dos gramados ao banco e tudo que envolve sua filosofia como treinador.

A passagem de Paulo Sousa pelo Girondins de Bordeaux foi mais curta do que o previsto. Escolhido para comandar um dos clubes mais tradicionais da França na temporada 2019/2020, o português se decepcionou com a abordagem da diretoria no mercado e o excesso de controle que a mesma queria exercer sob a figura do treinador antes de deixar o comando do clube um ano depois. Entretanto, durante sua estadia na França, o antigo jogador que conquistou a UEFA Champions League em duas ocasiões por dois clubes diferentes (1996 com a Juventus e 1997 com o Dortmund) deixou uma entrevista rica em conteúdo para a revista Onze Mondial. Confira a tradução:

SUA LIGAÇÃO COM O FUTEBOL

“O esporte apareceu em meu caminho muito cedo, conheci em Viseu, a minha cidade. Rapidamente pude sentir paixão e amor pelo futebol. Quando joguei como amador num clube próximo de onde nasci, tudo foi acontecendo. Meu desejo de me tornar jogador profissional surgiu tarde, quando o Benfica veio me contratar. Assinei meu primeiro contrato profissional com 17 anos e, a partir daí, compreendi que queria estar no futebol durante toda minha vida. Hoje agradeço todos os dias por estar no meio do futebol. É uma sorte trabalhar com o que você ama. Fazer algo que eu adoro na minha rotina não tem preço. Ser pago para exercer minha paixão, não há melhor. Não há muita gente no mundo que tem essa possibilidade. É por isso que dou o melhor de mim a cada dia. Levo muito tempo para transmitir minha paixão e meu conhecimento para todos que cruzam meu caminho. É algo muito importante na minha visão”.

AS DIFERENÇAS ENTRE JOGAR E TREINAR

“É muito diferente. Como indivíduo, numa vida cotidiana, somos egoístas e egocêntricos e, como jogadores, somos mais ainda. Mas, como treinador, isso não é possível. Devemos pensar em muitas coisas: nas relações humanas, em tudo que nos rodeia no dia a dia, na organização, na metodologia, no planejamento semanal, mensal e anual e entender o projeto geral do clube. Quando falo de projeto, tento entender a cultura da cidade, os torcedores, a história do clube e analisar os jogadores. Depois de ter feito tudo isso, aí podemos tomar decisões envolvendo o modelo de jogo e ter um início de ideia para atingir um objetivo estabelecido”.

TREINADOR, UMA VOCAÇÃO?

“Quando tomei a decisão de parar com a minha carreira de jogador, queria parar de pensar no futebol imediatamente. Na minha cabeça, era algo que estava finalizado. A primeira razão foi por ter sofrido bastante com as lesões, os anos eram cada vez mais difíceis para mim. Algumas semanas antes da Copa do Mundo, me lesionei no último minuto do primeiro tempo de um amistoso com a seleção. Pensei que estaria pronto para o Mundial, mas infelizmente não foi o caso. Depois disso, decidi acabar com tudo. Gostava de estar em campo e isso não era mais possível, então se tornou algo muito complicado. Outra coisa: eu acreditava em valores humanos que não eram necessariamente encontrados no futebol. Então, decidi parar. Mas depois de alguns meses de inatividade, entendi que não podia viver sem o futebol. O futebol me deu muita coisa e senti o dever de retribuir. O futebol me deu uma qualidade financeira, me permitiu ser conhecido e viver emoções indescritíveis. Queria continuar a viver todas essas emoções. O futebol se tornou minha vida. A partir daí me orientei para o ofício de treinador, pois queria transmitir meu conhecimento e minha experiência”.

A IMPORTÂNCIA DE TER SIDO JOGADOR

“Há 20 anos, somente os jogadores de futebol podiam se tornar treinadores. Hoje não funciona mais assim. Existem muitas complexidades nesse esporte. Os universitários começaram a analisar bem o futebol, por exemplo. Diferentes metodologias de trabalho foram criadas para atingir alguns objetivos. A terminologia que cada um utiliza também é diferente. Hoje, ela é mais específica e complexa. Quem pensa e analisa bem o futebol sabe que ele é um esporte extremamente complexo. E isso é algo que apreciei fazer após encerrar minha carreira. Ia até as universidades para entender melhor o jogo. Trabalhei durante seis anos com a Federação Portuguesa de Futebol e colaborei com a UEFA. Ia em todos os seminários organizados pelos treinadores. Durante seis anos, ia em todos os cantos para ver e entender os diferentes aspectos do esporte. A UEFA me deu a possibilidade para me introduzir em diferentes clubes do mundo e pude descobrir várias culturas para me instruir. Me dediquei bastante na minha preparação para tomar boas decisões no futuro. Antes de começar, queria aprender para ter uma boa metodologia de trabalho para colocar em prática com meus jogadores. Queria reduzir ao máximo a chance de lesão dos meus jogadores, por exemplo. Sofri com muitas lesões durante a minha carreira e queria evitar isso com meus atletas. Queria estar bem preparado para ajudar meus jogadores a evoluir, estar pronto para fazer evoluir a inteligência tática dos meus jogadores e ajudá-los humanamente. Por onde vou, focalizo e me preocupo em função dos meus jogadores”.

Com os jogadores, trabalhamos princípios claros para que eles possam entender o que devem fazer em situações de forma precisa”.

OS PRINCÍPIOS DE JOGO

“Dividirei meus princípios de jogo em cinco momentos. A organização ofensiva, a organização defensiva, as duas transições, ofensiva e defensiva – que é o momento quando você perde e recupera a bola – e, para finalizar, as situações de bola parada. Cada um dos cinco momentos possuem princípios e subprincípios. O princípio geral é a identidade comum. Quero dizer que cada jogador deve conhecer seus princípios independentemente da posição. O atacante deve saber o que fará o defensor e o defensor deve saber o que o atacante fará. Por quê? Porque, para mim, o futebol é baseado no espaço e tempo. Cada um deve saber qual espaço ocupar e em qual momento ocupar. Ele deve saber também qual espaço seu companheiro deve ocupar no mesmo momento. Também deve saber qual o momento em que ele estará no espaço. O jogador deve entender o espaço e o tempo para cada um dos cinco momentos citados anteriormente. Com os jogadores, trabalhamos princípios claros para que eles possam entender o que devem fazer em situações de forma precisa”.

A DEFINIÇÃO DE UM BOM TREINADOR

“Podemos chegar num resultado por diversas maneiras. Para mim, um treinador deve estar bem preparado, pois um jogador exige bastante do mesmo. Que seja no nível da metodologia, do conhecimento e da comunicação. Para mim, o foco está no jogador. Se tenho uma equipe e vejo que os jogadores evoluem, é o melhor resultado possível. Existem três aspectos envolvendo os jogadores: a inteligência tática, a inteligência de jogo e a inteligência humana. É importante que o jogador evolua dentro desses aspectos. Como eu enxergo uma equipe de futebol? Vejo ela como uma microssociedade. É por isso que você precisa de regras. Pois, no núcleo de uma equipe, você tem diversas culturas, diversos idiomas e diversas personalidades. Para coexistir juntos, devemos ter regras. O primeiro a dar exemplo é o líder. As regras devem ser consistentes e coerentes. Não é por ter acontecido algo com algum de seus jogadores que seu comportamento ou decisão irão mudar, por exemplo. Não, não estou de acordo com isso. É algo que não devemos fazer, pois o clube é o mais importante. Ele está acima de tudo. Os que melhor representam o clube são os torcedores. Mesmo depois da sua morte, eles deixam muito com sua família. Eles merecem muito respeito. É por isso que é muito importante ter um desejo manifesto de pertencimento. Mesmo se jamais vamos ter o mesmo que os torcedores têm. As pessoas mais importantes são os torcedores”.

A IMPORTÃNCIA DA PSICOLOGIA

“A emoção é muito importante no futebol. Para começar, é preciso saber gerir suas próprias emoções e depois temos que gerir as emoções dos outros. Ainda mais daqueles que podem nos influenciar. Tentamos otimizar a preparação ao máximo e utilizar nossa experiência para seguir bem concentrados para analisar as situações que surgem. É importante se comunicar com todos. Precisamos adaptar nossa comunicação também. Pois sempre existe um emissor e um receptor. É necessário saber algo muito importante: tudo que você disser influenciará o outro. É por isso que precisamos estar atentos em tudo que dizemos. Ainda mais como treinador, é preciso saber controlar suas palavras. Se você não as mede, isso pode ter uma repercussão negativa no receptor, depois nos outros e isso complica as coisas. O mais difícil está nos encontros coletivos. Quando você mostra uma situação precisa e que expõe um jogador é preciso ter muita atenção. Ainda mais no começo, quando seus jogadores não te conhecem. A partir do momento em que eles começam a entender sua maneira de trabalhar, isso fica mais fácil. O importante é fazer com que todos estejam interessados e é por isso que faço de maneira coletiva. É por isso que falo de uma identidade comum. Todo mundo deve entender todas as posições, não somente o seu. Por quê? Por ser uma questão de entendimento, mas também de comunicação. Os jogadores precisam ver as coisas o mais rápido possível, analisar mais rápido e executar mais rápido. O jogador pode observar as coisas graças a seu comportamento e capacidade de análise, mas, com apenas uma pequena comunicação, ele pode fazer melhor ainda para corrigir algumas coisas. Quanto mais os jogadores sabem da influência que cada papel pode ter na equipe, melhor a equipe se comportará”.

Quer conhecer o estilo de jogo, sistema tático e como Paulo Sousa gosta de montar suas equipes? Neste vídeo explicamos:

COMO ASSOCIAR OS PRINCÍPIOS À BUSCA DO RESULTADO?

“Pode ser algo muito complicado. Mas isso é para os treinadores que exercem pressão através do resultado. É verdade que, para ter uma certa estabilidade, para ter um projeto melhor, é preciso de resultados… Mas se você faz uma análise profunda dos últimos 20 anos sobre qual time venceu a Champions League, você compreende uma coisa: o treinador que possui os melhores jogadores vence mais jogos que os outros. É simples assim. A possibilidade de vencer é maior quando você possui os melhores. Ainda mais num campeonato, já que é uma maratona. Numa partida, é diferente pelos fatores que devem ser levados em conta, fatores que pesam no resultado de um jogo. Vemos isso a cada final de semana. Contra o Saint-Ètienne, fomos melhores, mas perdemos apesar de tudo. É a realidade do futebol. Não é sempre o melhor que vence. O mais importante é a qualidade de jogo de sua equipe e aí você tem a possibilidade de fazer bons resultados. Não me preocupo ao pensar em resultados a todo instante. Para mim, o foco está no jogador e em sua qualidade. Atenção, o resultado é importante. Mas o resultado é uma consequência da qualidade do jogo”.

A NOVA GERAÇÃO DITA COMO DIFÍCIL

“Comparando com a minha época, o que mais mudou? A importância dos agentes, pois eles estão mais próximos agora, e a importância das redes sociais, já que os jogadores estão expostos. Além disso, penso que funciona mais ou menos da mesma forma. Se seu clube possui uma cultura bem precisa, você está resguardado. E você não pode generalizar. Cada jogador é diferente, vieram de diferentes países e diferentes classes sociais. Para mim, é preciso mostrar o caminho para os jogadores com regularidade. Tem que haver coerência e consistência em seu discurso e ter uma cultura estável. Crescemos todos com uma boa base familiar: aprendemos a ser humildes, a fazer sacrifícios, a trabalhar, a ajudar a família… Mas quando nos tornamos jogadores, existem vários fatores que podem levar à mudança de comportamento. Entretanto, a base cultural do clube e a base familiar devem permitir ao jogador de entender que ele se equivoca quando comete erros. Acredito bastante na evolução do mundo e, para mim, a base é a educação”.

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1 comentário

  1. Cara, que baita entrevista. Trata do jogo de forma ampla, sem se apegar aos resultados do dia a dia.

    Sinto muita falta de conteúdos como esses por aqui. Que bom que temos o Footure agora.

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