Por que a Fiorentina não decola?

Apostas em jovens, treinadores veteranos, temporadas aquém do projeto; por que a Viola não consegue fazer um campeonato seguro?

Desde o seu retorno a elite após o processo de quebra, em 2005, a Fiorentina viveu altos e baixos na Serie A. Esteve em brigas de topo, na luta pela Champions League, ou até mesmo liderando o campeonato e teve boas participações europeias no período, seja na Champions, parando no apito, ou chegando a uma semifinal na Europa League.

Mas nada se compara com o processo desde a chegada de Rocco Commisso a presidência do clube. Em meio a um processo decadente que já abrangia a reta final dos irmãos Della Valle no comando da Viola, em temporada de Commisso o time de Florença esteve a disputar vagas nas competições europeias, o que era frequente nas temporadas anteriores. 

A derrocada já começa na temporada 2018–19, em que no período de Stefano Pioli o time até chega as semifinais da Coppa Italia, mas desde a virada do ano de 2019, só venceu duas partidas no campeonato. Pioli foi demitido, e Vincenzo Montella chegou ao time. 

Depois da chegada de Montella, a Fiorentina não foi capaz de vencer jogos em 2018–19. Na temporada, desde a chegada do treinador campano, sequer foi capaz de marcar gols em casa. Não a toa de uma posição tranquila e relaxada na tabela, escapou da queda na última rodada pela soma dos resultados entre a derrota do Empoli em Milão e o “jogo de compadres” feito diante do Genoa.

Mesmo assim, Commisso manteve Vincenzo Montella. Na temporada 2019–20, o time viola sofreu na primeira parte da temporada, chegou a se aproximar da zona de rebaixamento. A partir daí, trouxe Giuseppe Iachini, que teve uma permanência mais segura em relação ao ano anterior e terminou na 10ª posição.

Com alguns bons resultados, a Fiorentina conseguiu fazer um campeonato sem grandes sustos, especialmente após a volta de lesão de Ribéry, mas os resultados não convenciam. E mesmo assim, Giuseppe Iachini foi mantido para a sequência da atual temporada. Vale até ressaltar o que foi escrito por este colunista em novembro, antes da chegada de Cesare Prandelli:

A plataforma do treinador consistia em uma postura conservadora, especialmente voltada ao 3–5–2. Mas que parecia ao mesmo tempo limitada em vista as peças de qualidade técnica que a Fiorentina tem, e o desenvolvimento dos jovens jogadores do atual elenco.

Apesar de contar com uma série de criadores de qualidade, os toscanos não traduziram esse talento em oportunidades claras de gols com frequência quase suficiente. Os principais jogadores, Castrovilli e Ribery, ficavam longe do gol, assim como os alas, vitais neste tipo de esquema, o que piorou ainda mais com a ida de Chiesa para a Juventus, uma vez que Biraghi, jogando por ali, não consegue ter o mesmo talento.

Porém, o estilo cauteloso de Iachini, até mesmo nas substituições, em que por exemplo, no empate sem gols diante do Parma que definiu sua demissão, até colocou Bonaventura em campo, mas tirando Castrovilli, pesou bastante para seu futuro no cargo.

Depois da demissão de Iachini e os maus resultados iniciais, embora houvessem críticas, havia uma certa expectativa pelo trabalho de Cesare Prandelli, de volta após 11 anos de ausência na Viola, e sobre como ele aproveitaria um time jovem como o dos florentinos.

Especialmente tendo em vista o mercado ambicioso da Viola, que teve jogadores veteranos como Bonaventura, Amrabat e Callejón, e o retorno de alguns menos veteranos, como Biraghi e Kouamé, que poderiam ser boas apostas. 

Será que o mercado foi tão bem feito assim, ou o elenco da Fiorentina será mesmo desequilibrado, ou como um “frankenstein”, com a cabeça de um treinador, os membros de outro, e o tronco de outro que tenha passado por lá nos últimos anos?

Na análise do elenco, se pode perceber que alguns jogadores são mais adaptados para determinados esquemas, seja entre os zagueiros, entre os meiocampistas, e até mesmo com relação aos atacantes, poucos no atual elenco.

Por exemplo, no meio-campo da Fiorentina estão jogadores de contextos distintos. Pulgar e Amrabat estão mais adaptados e tiveram melhores momentos com um meio-campo de dois homens na defesa, enquanto Castrovilli, Bonaventura e Duncan são melhores em um meio de três jogadores.

O time sente problemas até mesmo na zaga e no ataque, sendo na frente o fato de que Ribéry e Vlahovic precisam da aproximação de um atacante. Jogar com mais zagueiros, onde Milenkovic e Pezzella se saem melhor, pode fazer alguns atacantes como Vlahovic, Kouamé, Cutrone (que deixou o clube em janeiro) e Callejón fora das partidas. 

Agora lembremos dos esquemas mais utilizados na temporada. Primeiro por Iachini, que foi e acabou voltando, o seu tão amado 3–5–2. Depois, por Prandelli se tentou o 4–2–3–1 e o 4–3–3, até retornar ao 3–5–2 por optar por uma maior segurança defensiva.

A mudança para o sistema com três zagueiros se deve ao fato de que o time teve mais problemas defensivos, com grande número de buracos nas jogadas, como no print abaixo diante do Milan, mas por outro lado, vale destacar os problemas que o ataque teve para a criação de jogadas. 

Na linha do 4–3–3 diante do Milan, a marcação errada da Fiorentina, com Cáceres e Milenkovic indo a direita, Pezzella marcando o homem errado e Amrabat deixando buracos. (Foto: L’Ultimo Uomo)

Tanto com Iachini quanto com Prandelli, a fase defensiva do 3–5–2 é feita para valorizar os zagueiros, o que explica de certa forma o bom momento de Milenkovic, sólido em duelos individuais. Por outro lado, nomes como Pezzella, que tem tido problemas físicos e no um contra um, sua especialidade, tem tido dificuldades na atual temporada. A surpresa fica por conta do bom desempenho de Martínez Quarta.

A defesa tem números problemáticos, com 45 gols sofridos até aqui no campeonato, embora seja apenas a 7ª pior defesa, estando apenas a frente de equipes nas quais estão atrás dela na tabela, os times que estão da 15ª posição em diante, a partir do Spezia.

Apesar disso, Pulgar e Amrabat, os meias defensivos da Viola, tem tido bons números de recuperação de bolas por jogo, sendo Amrabat com 9.95/jogo, e especialmente o chileno em destaque, com incrível média de 11,9 recuperações por partida.

Por outro lado, um problema que já existia nos técnicos anteriores, se manteve com Iachini e se manteve com Prandelli e tende a continuar, é exatamente a questão ofensiva da Fiorentina, que marcou apenas 35 gols no campeonato e tem o 7º pior ataque.

Os números baixos em gols se explicam pelo fato de que a Fiorentina finaliza em média 10,5 vezes por jogo, e em chutes a gol, o número se reduz para 3,25 chutes por jogo. Mas por outro lado, o time também tem algumas explicações táticas para que a bola chegue tão pouco.

Duas, incrivelmente passam por trunfos da equipe, primeiro por Martínez Quarta, que mesmo sendo destro, tem jogado pelo lado esquerdo, o que não ajuda na construção. Além de Amrabat, que é considerado lento para o começo das jogadas viola.

A situação praticamente obriga a Fiorentina a atacar sempre pelo lado esquerdo, com Ribéry, Castrovilli e Biraghi. Mas em uma temporada tão caótica técnica e fisicamente falando, se torna mais difícil para o veterano Ribéry, de 38 anos, repetir com mais frequência certos desempenhos.

Pra piorar, a situação na ala faz Ribéry receber muito atrás no meio-campo, e obriga a arrancadas que o francês não é mais capaz de dar. Além disso, Castrovilli por vezes é obrigado a jogar de costas para o gol adversário, e até a avançar muito para o ataque, o que não ajuda em nada o italiano, não tão forte fisicamente.

Diante da Udinese, um exemplo, Ribéry retorna para começar a jogada, enquanto Castrovilli dá suporte a Vlahovic mais adiante. (Foto: L’Ultimo Uomo)

Destaco um trecho do texto de Gian Marco Porcellini para L’Ultimo Uomo para exemplificar a questão:

O sentimento que a Fiorentina transmite é o de uma equipe rígida, que tem dificuldade em entrar em campo e jogar fora de posição devido à lentidão no desmarque e na movimentação da bola. Uma formação que dificilmente ousa um passe vertical por medo de perder a bola com a equipe aberta, refugiando-se em jogadas conservadoras e exasperando-se a procura de cruzamentos, principalmente na esquerda, já que na direita não existe um quinto homem capaz de dar amplitude e ir para o fundo.

Neste quesito de tão pouca efetividade, vale destacar o sucesso de Vlahovic, com 12 gols no campeonato até aqui, mesmo sendo longe do estilo mais rígido que Iachini deverá pedir, já que o sérvio tem dificuldades em jogar de costas para o gol, por exemplo, mas atendendo o estilo de consagrar artilheiros de Prandelli.

Por outro lado, se vê uma boa vantagem na movimentação do sérvio, na facilidade que Vlahovic tem tido para jogar ao lado de companheiros, e especialmente do fato de que o atacante de 21 anos tem tido um bom desempenho dentro da área.

Mas com estas questões ofensivas, é cada vez mais claro que Vlahovic, Castrovilli e Ribéry tem tido problemas por conta do estilo de jogo, e além disso, Callejón e Kouamé, acostumados a sistemas mais “leves” em seus antigos clubes, não conseguiram se adaptar.

Em outro trecho do texto de L’Ultimo Uomo que usamos de referência sobre a “enésima conturbada temporada da Fiorentina”, Porcellini cita o aspecto mental, que pode explicar alguns dos percalços de uma equipe jovem:

Nos últimos meses Prandelli convidou seus jogadores a vestirem “o traje de operário”, o que, em metáfora, significa entrar na ordem das ideias de ter que lutar pela salvação. Na realidade, os seus homens parecem estar muito atentos à situação pela qual estão a passar, e em campo revelam toda esta tensão, principalmente quando estão com a bola. Eles ficam apavorados com a ideia de errar e tentam minimizar os riscos, mesmo que isso signifique defender um resultado favorável abrindo mão da posse de bola e trazendo o adversário para a sua área, situação que não é propícia a Fiorentina.

Com todos os problemas, quando se anunciou a saída de Prandelli em vista a posição no campeonato, era uma demissão até certo ponto justificável pelo desempenho irregular. Mas as razões da saída do veterano treinador fazem com que a situação mude de figura.

Prandelli sentiu um vazio no futebol. Não apenas pela carta de despedida, mas pelo fato de que já dava sinais de cansaço em alguns momentos. Depois da vitória sobre o Benevento, o treinador italiano na Copa de 2014 já havia declarado estar “cansado e vazio por dentro”. 

Não é de se duvidar que o treinador já vinha sentindo esses problemas durante a formação da equipe, razão pela qual não conseguiu detectar algumas situações e resolver algumas outras, embora valha dizer que Prandelli não participou da montagem do elenco florentino. 

Em meio a desistência de Prandelli, se poderia talvez buscar uma opção melhor pensando em uma transição menos radical na próxima temporada, uma vez que busca-se nomes mais fluídos no mercado, como Gennaro Gattuso, que não deve renovar com o Napoli. 

Mas a opção pelo retorno de Giuseppe Iachini pode ter a ver com a busca por um modo mais seguro de fazer os 40 pontos necessários para escapar da queda, estando a 7 pontos acima da zona da degola, e assim poder planejar melhor a próxima temporada. Não é de se esperar que haja uma mudança radical no estilo de jogo da Fiorentina por agora.

E esse fato de não se esperar uma grande mudança no estilo de jogo viola diz muito sobre a situação dos últimos tempos da Fiorentina, com um marasmo enorme, a falta de objetivos que não os 40 pontos, e a limitação de seus melhores jogadores por esquemas de jogo que acabam por talhar o que há de melhor em suas funções. 

Resta saber se Rocco Commisso errará mais uma vez na manutenção do treinador, como nas duas temporadas anteriores. Para quem almeja um projeto de recolocação da Fiorentina dentre as principais forças da Serie A, acaba por ser aquém das capacidades da equipe almejar apenas pela “conquista” dos 40 pontos que podem salvar a Viola. Será que a Fiorentina pode mais?

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Caio Bitencourt

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