Todocampista à argentina

Sem Quintero à disposição, Nacho Fernández toma para si as rédeas do meio-campo do River Plate e faz a alegria da nação millonaria em 2019

Marcelo Gallardo é a face do River Plate na atual década. Não há dúvidas sobre isso. Poucos treinadores conseguem atingir um nível de culto maior que seus próprios jogadores junto à torcida e Muñeco é justamente um destes raros casos. Claro, seu passado em campo com a camisa millonaria é fator que colabora muito para o sentimento de adoração que contagia o Monumental de Nuñez todas as semanas, mas seu trabalho incontestável na casamata em termos de rendimento e títulos fala por si só.

Apesar de todos os méritos, Gallardo não chegou às glórias sozinho. Ano após ano, alguns nomes foram fundamentais para solidificar seus conceitos e contribuir para o funcionamento coletivo do River. Se nas últimas temporadas podemos destacar peças como Carlos Sánchez, Lucas Alario e Pity Martínez, 2019 tem tudo para terminar com Ignácio Fernández como o grande personagem.

Nacho não é exatamente o jogador que chama a atenção de imediato dentro de campo. Em um contexto onde cada vez mais velocidade, agilidade e imposição física são valorizados, o argentino de 29 anos se sente confortável com o perfil mais cerebral e discreto para operar dentro do sistema altamente dinâmico construído por Muñeco.

Mais do que isso, a versatilidade que oferece em posicionamento no meio-campo faz crescer ainda mais a sua importância. Em 42 partidas que disputou em 2019 até o momento – entre oficiais e amistosos – teve 21 aparições caindo pela direita, 17 pelo centro e 4 pela esquerda. Desta forma, consegue agredir os adversários de inúmeras maneiras com a sua perna canhota, podendo conduzir em direção ao centro do gramado, percorrer o corredor e buscar incontáveis ângulos para soltar o passe.

Entretanto, seu posto inicial no esquema pouco diz. Uma de suas principais características é o poder de associação e a inteligência na movimentação. Fernández se desloca muito. É um jogador que gosta de estar próximo ao setor da bola para trabalhar curto e poder ditar o ritmo do time, retendo a posse para atrair a marcação e, na sequência, acelerando a construção com passes para seus companheiros mais livres. Seus mapas de calor em partidas recentes contra Vélez Sarsfield e Boca Juniors ajudam a ilustrar essa tendência de flutuar pelo setor e, mais do que tudo, construir a sua imagem de um “todocampista”, como muitos destacam em seu próprio país.

As presenças de Nacho contra Boca (esq.) e Vélez (dir.) (Imagem: SofaScore)

E não só horizontalmente, mas também de maneira vertical Nacho deixa clara a sua hierarquia técnica. Além de ocupar espaços, sabe atacá-los por menores que sejam, sobretudo em zonas mais próximas à área adversária. Não foram poucas as vezes em que surgiu na cara do goleiro rival como um elemento surpresa, recebendo bolas em condições plenas para finalizar – e converter as chances. Dos 11 gols marcados em 2019, seis deles aconteceram dentro da área em finalizações a partir de ataques construídos com bola rolando. E ainda dentro destes seis, cinco vieram em ocasiões onde não havia marcação junto a ele – evidenciando ainda mais sua efetividade na hora de infiltrar para buscar a conclusão.

Outro ponto a ser levado em conta nesta influência cada vez mais ascendente de Nacho Fernández no time do River Plate é a lesão de Juan Fernando Quintero. Com o colombiano afastado por boa parte de 2019 devido a um rompimento de ligamentos no joelho, o time de Gallardo perdeu seu jogador de passes mais incisivos, capaz de gerar ocasiões de gol em alta escala. Sem ele, o camisa 26 assumiu este papel e passou a contribuir mais diretamente na criação de oportunidades. De janeiro até agora, acumula um total de 122 passes chave, sendo o líder millonario neste quesito.

Por mais que não seja um jogador que se sobressaia por seu potencial físico, o modo como se entrega em fase defensiva não pode passar batido. Inserido em uma equipe de altíssima intensidade sem a bola, que tenta encurtar espaços e pressionar o adversário em campo mais avançado buscando a recuperação da posse, precisa corresponder a tal exigência e vem cumprindo isso de maneira exemplar. Não é exatamente preciso em suas tentativas de desarme, mas sempre está em cima do lance para no mínimo atrasar a evolução ofensiva adversária.

Mesmo com tantos atributos e vivendo um momento de grande nível técnico, Nacho Fernández sequer é lembrado ou mesmo envolvido em discussões mais sólidas sobre participações na Seleção Argentina. Muitos dos problemas de construção e falta de combatividade no meio que vem sendo vistos recentemente na albiceleste poderiam ser atenuados com sua presença. Mas este problema não é dele. Enquanto isso, o River Plate desfruta exclusivamente de toda a qualidade do canivete suíço que tem em mãos.

Compartilhe

Comente!

Tem algo a dizer?

Dimitri Barcellos

Últimas Postagens

A onda tecnicista na função do auxiliar técnico de futebol
Jonatan Cavalcante

A onda tecnicista na função do auxiliar técnico de futebol

0 Comentários
Friendly #1 | Imaginar e construir o futuro, a habilidade fundamental do século XXI
Footure

Friendly #1 | Imaginar e construir o futuro, a habilidade fundamental do século XXI

0 Comentários
Surpresa e tradição: os classificados para as quartas do futebol masculino na Olimpíada
Caio Nascimento

Surpresa e tradição: os classificados para as quartas do futebol masculino na Olimpíada

0 Comentários
Osimhen, Simy, e a problemática das narrativas sobre jogadores africanos
Caio Bitencourt

Osimhen, Simy, e a problemática das narrativas sobre jogadores africanos

0 Comentários
O que esperar do Real Madrid para os próximos anos com Carlo Ancelotti?
Bruna Mendes

O que esperar do Real Madrid para os próximos anos com Carlo Ancelotti?

0 Comentários
O que explica as goleadas do Flamengo com Renato Gaúcho?
Gabriel de Assis

O que explica as goleadas do Flamengo com Renato Gaúcho?

0 Comentários
Como o Vojvodismo transformou o Fortaleza em protagonista no futebol brasileiro?
Jonatan Cavalcante

Como o Vojvodismo transformou o Fortaleza em protagonista no futebol brasileiro?

0 Comentários
God Save the Game #34 | A janela de transferências da Premier League 21/22
Gabriel Corrêa

God Save the Game #34 | A janela de transferências da Premier League 21/22

0 Comentários
Felipão chega entregando o de sempre: segurança e resultado
Gabriel de Assis

Felipão chega entregando o de sempre: segurança e resultado

0 Comentários
Guia do futebol masculino na Olimpíada de Tokyo 2020: parte 2
Caio Nascimento

Guia do futebol masculino na Olimpíada de Tokyo 2020: parte 2

0 Comentários
A Itália ainda pode crescer após o título da Euro?
Caio Bitencourt

A Itália ainda pode crescer após o título da Euro?

0 Comentários
Guia do futebol masculino na Olimpíada de Tokyo 2020: parte 1
Caio Nascimento

Guia do futebol masculino na Olimpíada de Tokyo 2020: parte 1

0 Comentários
O complicado início de Diego Aguirre no Internacional
Gabriel de Assis

O complicado início de Diego Aguirre no Internacional

0 Comentários
Rodrigo De Paul: o meia com DNA de Simeone e Atlético de Madrid
Bruna Mendes

Rodrigo De Paul: o meia com DNA de Simeone e Atlético de Madrid

0 Comentários
A Inglaterra superou seus traumas e, agora, se permite sonhar
Lucas Filus

A Inglaterra superou seus traumas e, agora, se permite sonhar

0 Comentários