A trajetória de Abel Ferreira até chegar ao Palmeiras

Do início da sua carreira no clube da terra até a titular do Sporting, o que Abel foi enquanto jogador reflete-se no que é como treinador. Mas o novo técnico do Palmeiras conjuga à emotividade do competidor, a capacidade de estudioso do jogo e o interesse pelas tecnologias de análise. Um perfil de Abel Ferreira por quem o acompanha desde o início.

Ver Abel Ferreira sair do PAOK para viajar para o Brasil, onde será o novo treinador do Palmeiras, não deixa de ser uma notícia surpreendente para muitos portugueses. Tendo saído de Portugal em alta, depois de um excelente trabalho no SC Braga, e tendo ficado às portas da Liga dos Campeões por duas vezes no comando do conjunto grego, Abel Ferreira era visto como um técnico com potencial para chegar a um dos grandes portugueses. Ao escolher o Palmeiras, trata-se do primeiro técnico português desta vaga a chegar ao Brasil em fase ascendente da sua carreira. O desafio é transformar o Verdão numa equipa que lute pelo título no Brasileirão.

Abel, o jogador/professor

Lateral direito aguerrido e com qualidade de jogo, Abel Ferreira fez toda a formação e os primeiros anos do percurso profissional ao serviço do FC Penafiel, a sua terra natal. O clube disputada a Segunda Liga Portuguesa e tornando-se numa das revelações da competição, foi contratado pelo Vitória SC de Guimarães no verão de 2000.

A partir daí disputou doze temporadas no escalão máximo do futebol português, sempre com muita utilização. Em 2004 mudou-se para os grandes rivais da equipa de Guimarães, o SC Braga e, dois anos depois, no início de 2006, acabaria por chegar ao Sporting. As suas qualidades foram sempre muito apreciadas, tendo sido quase sempre titular nas equipas onde passou, ainda que nunca tenha chegado a representar a seleção nacional.

Neste percurso encontrou vários treinadores que passaram pelo Brasil. No Vitória SC foi orientado por Jorge Jesus e Augusto Inácio (técnico que foi campeão português e teve uma curta passagem pelo Avaí), em Braga teve como treinador Jesualdo Ferreira e no Sporting foi jogador de Paulo Bento. Com Ricardo Sá Pinto cruzou-se ainda como jogador, já que a sua primeira temporada nos leões de Lisboa coincidiu com a derradeira passagem do atual técnico do Vasco pelo clube.

Apesar deste percurso profissional, Abel Ferreira não descurou os estudos e licenciou-se em Educação Física. Na sua passagem por Braga chegou mesmo a brincar com a situação, afirmando que “podiam chamar-me professor Abel”.

O homem de formação

A estreia de Abel Ferreira como treinador deu-se logo após a sua despedida dos relvados, passando de membro da equipa principal para treinador da equipa Sub-19 do Sporting Clube de Portugal. A sua entrada nesse escalão deu-se por substituição de Ricardo Sá Pinto, que subia, no mesmo momento, para treinador da equipa profissional. Uma geração muito forte permitiu a Abel Ferreira o único título conquistado até hoje, o Campeonato Nacional de Juniores português.

Pelo seu passado como jogador, pelo seu perfil de liderança e capacidade comunicativa, Abel Ferreira desde cedo foi visto como um potencial técnico para equipas dos escalões profissionais. Mas, ao mesmo tempo, alimentou a ideia de ser um técnico de formação, pela capacidade demonstrada para lidar com jogadores jovens e o alimentar do seu desenvolvimento. Sem dúvida um estudioso do jogo, Abel Ferreira detinha uma clara capacidade para intervir nesse processo.

Dos Sub-19, Abel Ferreira passou à equipa B do Sporting, onde acabou por ficar apenas uma temporada. Saiu em desacordo com o novo presidente dos leões e começou um caminho inverso ao que tinha feito como jogador, assumindo a equipa B do SC Braga. Essa opção acabaria por ser fundamental na sua carreira, já que foi dali que acabaria por saltar para os holofotes.

Em dezembro de 2016, depois da eliminação da Taça, José Peseiro foi demitido do lugar de treinador dos bracarenses. Para o seu lugar havia já um substituto determinado, mas chegando apenas uma semana mais tarde, havia que chamar um técnico interino para o jogo disputado no Estádio de Alvalade, frente ao Sporting, de Jorge Jesus. Abel Ferreira assumiu a oportunidade.

Lê aqui a análise de Luís Cristóvão ao primeiro jogo de Abel Ferreira numa competição profissional.

Em poucos dias, mudou a forma do Braga se apresentar, chamou alguns dos nomes mais experientes do plantel para a titularidade, assumiu a anulação das capacidades do adversário e saiu vitorioso. Um jogo, uma vitória, um discurso forte no pós-jogo. “Ao contrário do meu colega de profissão, eu conhecia muito bem esta equipa. Conheço muito bem este treinador, fui treinado por ele.” Abel Ferreira estava apresentado e antes que a época terminasse acabaria mesmo por ser nomeado o novo treinador do Braga.

Convicção, garra, emotividade

Abel Ferreira raramente deixa por dizer aquilo que tem a dizer. Em Braga, num clube que combatia por se afirmar perante os três grandes do futebol português, teve dois anos para demonstrar isso mesmo. Mas comece-se por aquilo que demonstra em campo. As equipas de Abel Ferreira tendem a ser muito organizadas, sobretudo a partir do momento defensivo. Equipas consistentes a partir de trás, organizadas num 4-4-2 que tende a cerrar fileiras e a impedir a construção dos adversários. A partir desse momento, na recuperação da bola, Abel Ferreira procurou sempre ter jogadores com muita mobilidade, porque a velocidade a partir dos homens da frente e a capacidade de decidir rápido com bola são imprescindíveis para esse primeiro momento de reação.

Com bola, a tendência passa por construir a 3, lançando também um dos homens da linha do meio-campo como um organizador de jogo. É natural que os seus onzes apresentem uma constituição algo híbrida, com um lateral a poder ter características de construção na linha de 3 e outro a fazer toda a faixa, aparecendo como extremo. O mesmo acontece com os extremos, sendo um deles mais dedicado à faixa e o outro com essa procura de aparecer por dentro, podendo tornar o sistema ofensivo num 3-4-3 ou num 3-4-1-2. Com a passagem para o PAOK, Abel Ferreira mostrou ter ainda capacidade para adaptar as suas ideias aos jogadores que tem no plantel, ora mantendo um jogador mais fixo na frente, ora apresentando apenas jogadores móveis na linha avançada.

Também é natural que a partir das suas ideias de base Abel Ferreira opere várias modificações de jogo para jogo, consoante o adversário. A sua capacidade estratégica está muito afinada e opera transformações conforme os dados que retira da observação do adversário. Com o PAOK esteve, nas últimas duas temporadas, na iminência de entrar na fase de grupos da Liga dos Campeões, mas o Ajax, em 2019/20, e o Krasnodar esta época, já depois de ter eliminado o Benfica de Jorge Jesus, fecharam-lhe essas portas. Essa poderá ser, aliás, a fasquia que tem para ultrapassar na sua carreira. Sem títulos a nível profissional, sem ter conseguido elevar o PAOK para lá das pré-eliminatórias, Abel Ferreira ainda precisa mostrar as suas capacidades para sair ganhador de um jogo grande. No Palmeiras parece encontrar o espaço ideal para o fazer.

A figura de Abel Ferreira na linha lateral oferece ainda a garra e a emotividade que o caracterizam. Em Portugal não evitou ser expulso algumas vezes e a sua presença nas conferências de imprensa gerou também alguns momentos de elevada intensidade. Essa capacidade passa muito para as equipas, mas não com o ponto negativo de perder a cabeça. Dir-se-ia por vezes que da parte de Abel há uma gestão dessa emotividade no discurso para elevar o nível de motivação do plantel. A conquista do balneário também se fará a partir daí.

Analytics e Scouting: ferramentas essenciais

A equipa técnica de Abel Ferreira, com Carlos Martinho em posição de adjunto principal, é fundamental para o desenvolvimento realizado pelo treinador português. O interesse pelo estudo do jogo e pela análise aprofundada de todas as ferramentas disponíveis na atualidade tornam-no num técnico virado para o futuro. Com ele no comando da equipa principal, o SC Braga associou-se à Goalpoint, com as áreas de intervenção “desde o reporting estatístico e análise, pré e pós-jogo, tanto da equipa sénior do SC Braga como dos seus adversários, até à avaliação e scouting de alvos de mercados de acordo com as características definidas pelo clube” a serem geridas com essa empresa portuguesa.

Tiago Estêvão, atualmente a trabalhar num grande clube europeu, esteve ligado a esse processo e conta-nos como foi trabalhar com Abel Ferreira e a sua equipa técnica:

“Parte essencial do nosso trabalho semanal estava relacionada com a análise ao adversário: era feito um relatório de análise à equipa com a qual o Braga iria jogar, no qual se demarcavam tendências coletivas e se destacavam as características individuais dos seus jogadores – num relatório que tinha uma porção mais centrada nos dados e notas de interpretação sobre os mesmos. Uma característica do sistema do Abel, particularmente na altura, era a sua adaptação ao adversário. Queria ser uma equipa pressionante, mas a análise era importante para saber como adaptar esta pressão ao adversário (entender os jogadores e zonas mais suscetíveis à pressão, entender por onde guiar a construção do adversário) de modo a que fosse mais eficaz. Era uma equipa que queria ser dominante em posse, mas que conseguia entender em que jogos ou momentos poderia tirar partido de oferecer a iniciativa ao adversário. Os dados e a sua análise (associados ao video, também) ajudavam nestes detalhes na abordagem específica a cada jogo. No que toca ao desenvolvimento do modelo, os relatórios pós-jogo referentes à própria equipa são parte do processo de identificação de erros e melhorias a fazer à abordagem, que é natural no processo de qualquer treinador.”

Também a análise ao mercado era uma das ferramentas desenvolvidas de perto com a equipa técnica de Abel Ferreira. Tiago Estêvão revela-nos mais. “Penso que a nível de abordagem do mercado, o Abel e sua equipa técnica têm passado por contextos (Portugal e Grécia) no qual o treinador não tem total autonomia no processo de contratar jogadores, e existem muitos fatores a influenciar este processo. Tendo isso em conta, as analytics eram usadas tanto numa fase final de processo – usadas para influenciar as opiniões e preferências sobre jogadores numa lista final de candidatos – como para procurar jogadores com as características desejadas desde o zero. É importante também para identificar jogadores de mercados alternativos, que possam trazer soluções mais realistas financeiramente para os clubes. Tendo em conta as escolhas do PAOK no mais recente mercado – quase todos jogadores que se destacam nos dados, com boa relação qualidade-preço, muitos de mercados alternativos – diria que todo o processo de abordagem ao mercado tem vindo certamente a ser cada vez mais afinado.”

Palmeiras, o desafio

No Palmeiras, Abel Ferreira vai ter o maior desafio da sua carreira. As lições de Braga e PAOK foram consolidadas, mas no Verdão acabará por encontrar ainda mais pressão e exigência, ao mesmo tempo que deverá ter ao seu serviço um plantel com grande qualidade. Quando aterrar no Brasil, Abel já saberá exatamente o que o espera em termos de potencial. Jogadores com experiência europeia que podem dar mais à equipa e muita juventude a prometer explodir nos próximos meses. Também é seguro que até ao fecho de mercado de transferências já terá percebido quais os alvos a atacar para ter uma equipa ainda mais forte.

Construir um novo ADN para o Palmeiras parece, assim, ao alcance do líder Abel Ferreira. O português quererá, no momento de assinatura de contrato, deixar claro quais as responsabilidades que terá do seu lado. A sua exigência natural será sentida por toda a estrutura e ele próprio exigirá da diretoria o mesmo nível de comprometimento. Como referido, Abel não deixa nada por dizer. O Palmeiras acertou na escolha. Agora é tempo de acertar no processo para alcançar o sucesso.

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Luís Cristovão

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