DO JOGO CURTO À PRESSÃO PÓS-PERDA: CONHEÇA OS PRINCIPÍOS DO MODELO DE JOGO DE ADRIANO SOUZA
Aos 41 anos, o treinador acumula experiências em equipes como Atlético-BA, Vitória das Tabocas, América-PE, Foz do Iguaçu e recentemente assumiu o comando técnico do Treze, da Paraíba
Com uma campanha de destaque na primeira fase do Campeonato Paranaense, o Foz do Iguaçu garantiu vaga na segunda fase ao terminar em segundo lugar do grupo, superando equipes como Athletico Paranaense, apontado como favorito ao título, e o Maringá.
A equipe chamou atenção pelo estilo de jogo agressivo e propositivo. Com um ataque móvel, que marcou 11 gols em seis partidas, o Foz buscava constantemente superioridades através de aproximações curtas pelos lados do campo, trocas rápidas de passes e dinâmicas bem definidas de terceiro homem.
Essa identidade está diretamente ligada à personalidade do treinador Adriano Souza, que acumula passagens pelas categorias de base de clubes como Cruzeiro e Vasco, além de bons trabalhos em divisões menores do futebol brasileiro. Em entrevista à Footure, o treinador falou sobre seus métodos, princípios de jogo e ambições na carreira.
O Foz costumava utilizar uma saída sustentada, com muitos jogadores próximos ao próprio gol, atraindo o adversário para gerar espaços. Qual a maior complicação para gerar essas vantagens de forma curta no momento da pressão?
A saída de bola curta é um padrão nas equipes comandadas por mim, eu acredito que seja algo muito vantajoso e que nos permite ter opções variadas de progressão segura ou aproveitar os espaços deixados nas costas da linha de defesa, algumas dificuldades são: primeiro que não pode ser algo mecânico pois hoje todas as equipes estudam, analisam e tentam criar mecanismos de que essas rotinas aconteçam com sucesso, isso implica em que nos treinamentos nós consigamos fazer os atletas perceberem as referências pedagógicas e conceituais para eles mesmos terem.
A partir desse entendimento, a capacidade de criar diferentes soluções, a depender do tipo, nível e intensidade da pressão a ser exercida, o treino para desenvolver esse tipo de autonomia. Ao mesmo passo que precisa ser orientador e ter a capacidade de nortear decisões, não pode tirar do atleta um espaço de criação própria. Para que no momento que surgirem fatores dificultantes eles tenham a capacidade de encontrar soluções sem abdicar do conceito de jogo e abdicar do jogo curto que é o intuito do adversário quando decide nos pressionar.
Como são as dinâmicas de treinamento para fazer uma equipe trabalhar bem de forma curta, levando em conta o tempo de treinamento e a condição dos gramados que a equipe atua?
A dinamica de treinamento varia de acordo com cada grupo de trabalho, mas de maneira geral parte de um início fazendo os atletas terem clareza acerca do desenho dos objetivos conceituais, e a partir disso em um segundo momento nós começamos a refinar o conceito através da introdução de sub princípios que são orientadores e referenciais.
A depender da estratégia e das características do grupo de jogadores, e do entendimento prévio que eles possuem acerca desse tipo de iniciativa, esses sub princípios são desenvolvidos a partir de atividades que visam estimular uma maior propensão desses acontecimentos para que os mesmos através da criação de um hábito em ato, possam estar mais adaptados a esse tipo de padrão de movimentos a ponto de poderem executar, apesar de conscientemente, mas sem a necessidade de uma reflexão ativa, pois nesses momentos não há tempo, para tomadas de decisões tardias, o que pode acarretar muito risco e ineficiência da ação, em uma terceira fase, os sub dos sub princípios que visam desenvolver e aprimorar comportamentos necessários a execução dos sub princípios e princípios, como por exemplo passes de conexão, dinâmicas de terceiro homem, capacidade de jogar sob pressão, mapeamento de espaço as costas, e muitos desses pequenos detalhes tão fundamentais a operacionalização deste tipo de iniciativa de jogo.
Quanto ao tempo de treinamento é um fator que dificulta realmente mas essas dinâmicas vão sendo criadas treino a treino e evoluindo a cada jogo em complexidade, sobre gramado, claro que sempre flui melhor quanto melhor for o gramado, mas entendo que o maior fator de dificuldade é a segurança dos atletas para executar em gramados não tão bons, pois ficam muito expostos ao erro, porém, entendo que é possível ser feito em qualquer campo que tenha mínimas condições, dependendo sempre da capacidade coordenação da pressão exercida.
No América e no Foz, apesar de preferir um jogo de aproximação, as equipes eram muito fortes nas transições, tendo os extremos dando bastante profundidade para as jogadas. Dentro desse contexto, como funciona o trabalho dos centroavantes? Já que Vinicius Peixoto e Renato Henrique tinham um papel muito importante na criação de jogadas.
Foz do Iguaçu e América tinham aspectos diferentes, apesar de próximos ideologicamente, mas possuíam detalhes que os tornavam bastante distintos. No América, o Renato exercia uma função híbrida, alternando momentos em que participava como um meia — com mecanismos compensatórios para infiltração dos extremos ou de algum dos médios no espaço deixado — e outros em que se comportava como um centroavante, explorando muito bem os espaços por meio de desmarques curtos de ruptura, colocando-se frequentemente em condição de finalização.
No Foz, jogávamos predominantemente com dois atacantes, próximos e interagindo entre si, com orientação para que os movimentos fossem coordenados, de modo que um se aproveitasse do movimento do outro. Como a maioria das equipes que enfrentávamos defendia com linha de quatro, isso nos permitia eliminar a vantagem numérica do adversário no corredor central.
Tanto um mecanismo quanto o outro foram pensados para trazer imprevisibilidade à nossa forma de atacar e possuíam muitos detalhes que dificultavam a análise adversária e a identificação de padrões, em função da alta variabilidade. Evidentemente, no momento de operacionalizar essas ideias, respeitamos as características individuais de cada atleta e buscamos potencializá-las por meio do desenho tático, além de realizar ajustes específicos de acordo com a forma como os adversários defendiam
Pensando no desenvolvimento de atletas, você trabalhou na base de grandes clubes e fez um trabalho no América-PE baseado bastante no crescimento de atletas sub-23. Como é o trabalho diário com esses jogadores? Inserir uma ideia de jogo é mais fácil em atletas que estão no processo de formação?
O desenvolvimento individual é parte fundamental do trabalho de qualquer treinador, seja ele de base ou profissional. É nosso papel ajudar os atletas a evoluírem em cada treino, e isso não significa, necessariamente, abrir mão do desenvolvimento coletivo. Feedbacks individuais, programas específicos de desenvolvimento e fazer com que o atleta tenha clareza sobre suas necessidades facilitam muito esse processo.
Entender e respeitar as características individuais, dar espaço para que o atleta se desenvolva e possuir uma abordagem orientadora, e não punitiva, ajudam bastante. O atleta precisa acreditar na nossa capacidade de ajudá-lo, mas, acima de tudo, na nossa intenção.
Quanto a ser mais fácil trabalhar com atletas mais jovens, acredito que existam aspectos positivos e negativos. Tudo depende muito da mentalidade do atleta. Em alguns casos, o atleta mais jovem está mais aberto, mas, em outros, por ter menor entendimento do jogo, pode demorar mais para compreender o que é pedido.
Da mesma forma, existem atletas mais experientes que possuem grande sede por aprendizado e conseguem executar ideias mais complexas com rapidez. Não faço distinção quanto à idade. Já trabalhei com atletas experientes que absorviam tudo rapidamente e tinham coragem de executar, assim como com atletas mais jovens de mentalidade mais fechada. Não existe uma regra. O que importa, de fato, é a capacidade técnica dos atletas e a nossa capacidade de convencimento, demonstrando domínio do conteúdo e clareza sobre aquilo que nos propomos a idealizar.
No futebol atual, o conceito de pressão pós-perda é essencial. Levando em consideração as limitações técnicas e físicas de equipes menores, como entender o melhor momento para pressionar e quando é melhor apenas correr para trás e recompor rapidamente?
O jogo de futebol é muito caótico e imprevisível. Tanto equipes menores quanto maiores precisam entender muito bem esses momentos. Aspectos técnicos e físicos são importantes na reação pós-perda, mas entendo que os aspectos táticos, individuais e coletivos, são ainda mais determinantes, pois podem suplantar deficiências específicas.
Orientar os atletas sobre abordagem corporal adequada e comportamentos coletivos estratégicos faz muita diferença, e isso vem de treinos, feedbacks e coordenação de movimentos. Saber o que fazer em cada momento é algo estratégico, mas precisa ser balizado por referências coletivas claras, que orientem as decisões.
Entender a altura do campo, a fase do jogo e o setor onde a perda ocorre, além de ter esses comportamentos suficientemente habituais para que o atleta não precise pensar na decisão, é fundamental. Além disso, é importante ter movimentos compensatórios para quando algo não funcionar, oferecendo segurança ao atleta. Vale lembrar que sempre haverá risco, independentemente da escolha, e essas decisões também passam pela personalidade do treinador, além da capacidade dos atletas.
Para finalizar, quais são os seus planos a curto prazo e seus próximos objetivos na carreira?
A curto prazo, meu plano é disputar uma competição nacional por uma equipe que tenha ambição de brigar por título ou acesso e condições estruturais para desenvolver um trabalho com excelência. Acredito que, por onde passei, um ponto de destaque sempre foi a capacidade de extrair grandes desempenhos mesmo em equipes com pouco poder de investimento, o que reforça minha convicção de que, no futebol, não há limites.
Espero chegar ao mais alto nível do futebol brasileiro e mundial. Trabalho e me preparo diariamente para isso, buscando evoluir meus métodos e conhecimentos, mesmo tendo clareza sobre as dificuldades e barreiras que encontrarei pelo caminho.
Acredito muito que a capacidade de potencializar atletas e equipes pode me levar a esse espaço tão sonhado. Ao longo da minha trajetória, tenho conseguido, com a bênção de Deus, quebrar muitas barreiras, e pretendo continuar escalando a pirâmide do futebol com humildade.
Minha formação acadêmica também segue essa linha de buscar algo diferente do convencional e tradicional. A conclusão do mestrado em periodização tática otimizou muito minha prática metodológica, e sigo buscando esse diferencial todos os dias.
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