Notas sobre o falhanço — a mudança de treinador na Liga Portuguesa

Oito mudanças de treinadores na primeira volta da Liga Portuguesa, com razões diferentes, são exploradas neste artigo sobre a forma como se falha no futebol em Portugal.

Fechando a primeira volta na Liga Portuguesa, oito em dezoito equipas mudaram já de treinador. São histórias diferentes, cada uma delas construída a partir de equívocos, fragilidades ou azar, situações que raramente recebem tempo de reflexão porque, no futebol, vive-se o cotidiano na certeza que o próximo resultado é melhor resposta do que compreender o passado, tendo em conta que ganhar, tantas vezes, faz esquecer o que de mal acontece.

Sobre a importância do passado

O passado oferece-nos situações difíceis de esquecer. No Farense, o regresso à Liga, 18 anos depois, foi garantido com Sérgio Vieira e a ele confiado o papel de transportar a equipa à manutenção nesta temporada. Num projeto que se quer sustentável, já que o investimento em Faro é realizado quase numa perspetiva familiar, com o dono do clube a estabelecer metas desportivas e estruturais em níveis iguais, a resistência à mudança rápida de treinador é compreensível. O plantel tem vindo a ser retocado, ainda que se mantenha com fragilidades que já eram notórias no início da temporada. O falhanço de Sérgio Vieira é um falhanço no tempo. Quando tudo em volta aconselha calma, alguém, neste caso o treinador, não pode cair no engodo de acreditar que essa calma não o afetará negativamente.

O conto de fadas do Famalicão terminou em pesadelo para João Pedro Sousa. Na época passada, a equipa rendeu bem acima daquilo que os seus números prometiam. Ainda assim, o objetivo era claro e foi atingido, com a valorização de um largo conjunto de jogadores, quer próprios, com as vendas de Pedro Gonçalvez, Toni Martínez e Rúben Lameiras, quer elementos que estavam emprestados, como Fábio Martins e Uros Racic. As primeiras semanas em Famalicão mudaram bastante o nível dos jogadores presentes, algo que foi sendo acompanhado com uma nova revolução no plantel. No primeiro onze de Jorge Silas estavam apenas três jogadores do plantel do ano passado mas, sobretudo, cinco dos nomes do onze não estavam na equipa no início da época. No futebol, a revolução pode criar condições para a surpresa, mas o estado revolucionário constante empurra qualquer equipa para o fundo do poço. João Pedro Sousa falhou, porque percebendo-o ou não, não estava no seu poder alterar a situação das coisas.

Sobre as apostas claramente erradas

Tiago Mendes não viu condições num projeto que tinha tudo para ser um excelente lançamento de carreira. Mário Silva não foi capaz de encontrar forma de abordar um início de temporada muito exigente ao nível europeu com uma ideia que precisava de tempo para atingir – e nunca foi alcançada. Lito Vidigal voltou a demonstrar que é um treinador de finais, não de inícios. Vasco Seabra foi um dos equívocos do projeto de grandeza do Boavista de Gerard López. Apostas claramente erradas terminam, muitas vezes, em momentos de mudança necessária a meio do trajeto. E assim acontece com estas quatro equipas.

O Vitória SC não é um caso de falhanço. A saída de Tiago Mendes foi retificada a tempo de permitir ao clube a abordagem ao objetivo determinado para a temporada, com vista para a Europa. O Marítimo encontrou dentro de casa, em Milton Mendes, uma resposta rápida para uma mudança de perfil de jogo, beneficiando agora de um lote de contratações que poderá mexer com a forma como olhamos para a equipa madeirense. Mas fica registada a forma como Carlos Pereira, o presidente dos verde-rubros, conduz o projeto desportivo do seu clube sem um rumo determinado. O erro de Lito Vidigal é, neste momento, ter-se radicalizado numa proposta de jogo que contraria qualquer tendência de controlo de jogo da parte da sua equipa. Os pequenos sucessos que alcançou em tempos recentes não servem para explicar porque ainda há equipas em Portugal que procuram os seus serviços (pelo menos enquanto não mudar de pensamento de base para os seus conjuntos).

Rio Ave e Boavista tentaram apostas em novidades que acabaram por não resultar de diferentes formas. Em Vila do Conde, Mário Silva terá recebido uma missão que estava bastante afastada daquelas que eram as suas possibilidades no momento. A falta de experiência no comando de equipas seniores veio ao de cima num início de temporada particularmente exigente. E quando um treinador perde o comando da sua equipa, percebe-se neste exemplo, fica refém dos seus erros iniciais. O projeto de jogo de Mário Silva e a forma como o Rio Ave se apresentou nas pré-eliminatórias europeias eram duas linhas que chocaram entre si até não mais ser possível continuar na frente do clube.

Já no Boavista a questão prende-se com outro pormenor. Num plantel construído com uma visão de crescimento, com muitos jovens ao lado de vários jogadores de larguíssima experiência, a proposta de jogo de Vasco Seabra não passou. Confirmou-se, depois, que a sua contratação era uma escolha da Direcção do clube, prévia à entrada do investidor Gérard López, e essa incongruência ficou clara na forma como a equipa técnica não foi capaz de potenciar uma aposta de risco. Saiu do clube, mas não saiu da Liga, ainda assim, um treinador que merece atenção.

Sobre oportunidades e situações inexplicáveis

Com o Gil Vicente a escapar do fundo da tabela com uma vitória na derradeira jornada e o Moreirense a meio da mesma, parecerá estranho analisarmos os dois conjuntos de forma conjugada neste texto. Mas ambos exerceram mudanças de treinadores em situação que soaram a oportunidade para alcançar outros objetivos em circunstâncias que acabaram por não ser ainda explicadas. O Gil Vicente não ultrapassou, ainda, a forma como geriu a saída de Vítor Oliveira na época passada. Rui Almeida foi anunciado cedo demais, o que mereceu até reparo do malogrado treinador, e apresentava-se como mais um técnico com uma proposta de jogo ambiciosa, claudicando no início de uma temporada marcada pelo Covid-19 e por uma série de encontros frente a adversários de nível alto. A série de quatro derrotas que serviu de explicação para a sua saída incluiu jogos frente a Porto, Sporting, Vitória e Nacional onde a equipa dava sinais de competir. Mas com Ricardo Soares livre no mercado, o diretor desportivo gilista considerou ser aquele o momento da mudança. Os resultados pesam, no entanto.

Ricardo Soares saiu do Moreirense depois de uma época de enorme sucesso e superação. Mantinha-se em Moreira de Cónegos com resultados que prometiam a manutenção na primeira metade da tabela, mas a forma como a direção do clube gere os destinos do mesmo carece de explicação. César Peixoto foi uma aposta de risco, enquadrada na filosofia do clube de permitir a estreia na Liga a vários outros treinadores, mas saiu pouco depois, este em claro conflito com a intromissão de dirigentes nas suas decisões. Vasco Seabra, o técnico que se segue, recebe um plantel equilibrado, sem ser demasiado rico em opções, num ambiente onde se comprova que, mesmo em tempos de vitórias, os falhanços podem encontrar espaço para se evidenciarem.

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