O CAMALEÃO TÁTICO DE ERNESTO VALVERDE

Por @VLamhOliveira Além da base filosófica e estratégica do futebol implantada no clube desde a década de 70, o Barcelona traz no seio de sua execução tática uma primazia histórica ao 4-3-3, sobretudo na era Messi, ainda vigente. Muitos têm questionado a motivação de Ernesto Valverde por preterir tal esquema e escalar o escrete catalão […]

Por @VLamhOliveira

Além da base filosófica e estratégica do futebol implantada no clube desde a década de 70, o Barcelona traz no seio de sua execução tática uma primazia histórica ao 4-3-3, sobretudo na era Messi, ainda vigente. Muitos têm questionado a motivação de Ernesto Valverde por preterir tal esquema e escalar o escrete catalão em um típico 4-4-2, mais precisamente um 4-4-1-1 pela liberdade conferida a Messi. A solução para superar a perda de Neymar foi enaltecer o argentino genial lhe conferindo espaço.

Como explicado por André Rocha, Valverde utilizou contra o Chelsea sua ideia do início da temporada, ou seja, um 4-4-2 com Dembelé abrindo o campo pela direita e Alba realizando a mesma função pelo lado oposto, contando com a cobertura de Umtiti e o apoio espacial de Iniesta. Sergi Roberto fica mais preso e Busquets mais fixo na proteção da zaga, sempre preocupando em recompor a linha defensiva quando um dos laterais sai para atacar a bola, como demonstrado na imagem abaixo:

Sergi Roberto sobe para auxiliar o extremo no ataque ao portador da bola e Busquets se coloca junto à linha defensiva para recompô-la. Os dois possuem atribuições mais defensivas na engrenagem final da temporada de Valverde.
Sergi Roberto sobe para auxiliar o extremo no ataque ao portador da bola e Busquets se coloca junto à linha defensiva para recompô-la. Os dois possuem atribuições mais defensivas na engrenagem final da temporada de Valverde.

A construção tática de Valverde tem uma motivação precípua: proporcionar espaço para Messi circular, criar, destruir e decidir. O furacão Messi cria e destrói rapidamente as defesas com seu talento inexplicável, sendo letal quando lhe é conferido espaço. Quando está inspirado então, lhe conceder campo pode significar uma goleada. Essa libertação conferida ao melhor jogador do mundo teve início quando Neymar decidiu mudar de ares e se mudou para Paris.

Na pré-temporada, ainda com Neymar no grupo, o treinador manteve o 4-3-3 tradicional. Mas, quando o brasileiro partiu, Valverde parece ter ficado inicialmente indeciso sobre a melhor forma de suprir a ausência do craque brasileiro. Neymar e Suárez, além de serem craques do time, eram jogadores que também tinham a função de propor espaços para Messi, sobretudo o brasileiro com suas diagonais. Neymar realizava essa função com habilidade e dribles e o uruguaio com muita movimentação sem a bola.

Na Supercopa da Espanha deste ano, a dúvida de Valverde ficou exposta nos dois duelos diante do Real Madrid, título que o Barça perdeu com duas derrotas incontestáveis. Na primeira partida, disputada no Camp Nou, Valverde escalou a equipe no habitual 4-3-3, com Deulofeu atuando na posição anteriormente ocupada por Neymar. No Santiago Bernabéu, o treinador resolveu mudar para um 3-5-2, colocando Messi e Suárez na frente. Para seu infortúnio, também não deu certo.

02 03

Nenhuma das duas tentativas logrou êxito, sendo as duas derrotas um recado para Valverde. Entretanto, a liberdade conferida a Messi no jogo do Bernabéu, quando reforçou a defesa com três zagueiros, mostrou um caminho para o treinador do Barça que, agora classificado para as quartas da Champions, mostra seu melhor resultado: liberar Messi mais ao centro, entrelinhas, livre do processo defensivo e com liberdade total para flutuar. Nascia nesse momento o “camaleão tático” muito bem identificado por Luís Castro Martins (link do texto abaixo).

Para o analista, seria falacioso dizer que o Barça joga no 4-4-2 ou no 4-3-3 pela hibridação do esquema que favorece Messi. Não é uma supressão do coletivo em detrimento do talento, pensamento que não coaduna com os dogmas modernos da bola, mas podemos afirmar que o coletivo blaugrana gira em torno de seu rei, fato que de certa forma enfraquece a fase defensiva e diminui a simetria que o balanço defensivo necessita. Prova disso foi a superioridade coletiva do Chelsea nos dois duelos que fora decidido pelo talento voraz de Messi.

Esquema Camaleão x 5-4-1 de Conte: Alba faz às vezes do extremo pela esquerda e pela direita amplitude dada pelo outro extremo. No centro, uma trinca de meias para Messi poder dar rotatividade ao jogo e um Suárez extremamente atento à frente, tanto para finalizar quanto para proporcionar ainda mais espaços ao argentino. (Imagem: Lee Fletcher)
Esquema Camaleão x 5-4-1 de Conte: Alba faz às vezes do extremo pela esquerda e pela direita amplitude dada pelo outro extremo. No centro, uma trinca de meias para Messi poder dar rotatividade ao jogo e um Suárez extremamente atento à frente, tanto para finalizar quanto para proporcionar ainda mais espaços ao argentino. (Imagem: Lee Fletcher)

Por isso André Rocha foi muito bem ao lembrar que Valverde tem retomado nesta reta final de temporada aquilo que idealizou no início da mesma. Percebemos o meio de campo e a defesa se esforçando para manter o campo largo e profundo para um Messi livre obter espaço, tanto no centro como pelas beiradas, praticamente como um legítimo segundo atacante que flutua sem qualquer obrigação às costas do centroavante rompedor e finalizador, atributos de Suárez.

Aqui no portal, @Maiiron em texto intitulado “Efeito Messi”, ressaltou muito bem que o Chelsea tinha um plano e o estava executando com êxito, mas o fator desequilibrante denominado Messi fulminou qualquer desenho tático ou estratégia. Tudo isso proporcionado pelo talento infindável do gênio e também pela engrenagem de Valverde que existe e se subdivide diante de seu rei, seja para lhe proporcionar triângulos com linhas de passe ou abrindo espaço para que decida dando assistências ou marcando os gols.

“Reitero, a atuação do Chelsea era muito boa. Mas ter Messi é um fator desequilibrante. Ter Messi é como ter uma arma de fogo em uma guerra de flechas. Ter Messi é ter tudo. Guardiola tem razão. Quem tem Messi, tem tudo. Hoje ele fez tudo. Suárez abdicou de um contragolpe para dar a bola e ele fuzilar Courtois. Messi é fora da curva, dois gols e uma assistência em um jogo que não foi brilhante do Barcelona”. (Efeito Messi, link abaixo)

Lance do primeiro gol contra o Chelsea. Alba apontado como uma flecha faz o extremo pela esquerda. O movimento de Dembelé para o centro enquanto a bola girava da esquerda para a direita conferiram espaço para Messi criar, seja na tabela com os companheiros, como foi, seja sozinho com suas arrancadas assassinas.
Lance do primeiro gol contra o Chelsea. Alba apontado como uma flecha faz o extremo pela esquerda. O movimento de Dembelé para o centro enquanto a bola girava da esquerda para a direita conferiram espaço para Messi criar, seja na tabela com os companheiros, como foi, seja sozinho com suas arrancadas assassinas.
O segundo gol foi uma arrancada “a la Messi” que costurou a defesa ao retomar no meio. Acima, o início do terceiro gol. Lionel estava aberto pela direita quando a bola foi retomada na esquerda e tocada para Suárez. O uruguaio partiu em velocidade, assim como os companheiros, mas não para decidir. A intenção era buscar Messi que rapidamente correu para a zona morta, onde teria espaço.
O segundo gol foi uma arrancada “a la Messi” que costurou a defesa ao retomar no meio. Acima, o início do terceiro gol. Lionel estava aberto pela direita quando a bola foi retomada na esquerda e tocada para Suárez. O uruguaio partiu em velocidade, assim como os companheiros, mas não para decidir. A intenção era buscar Messi que rapidamente correu para a zona morta, onde teria espaço.
Suárez entrega a bola ao craque e lhe fornece opções somadas aos espaços. Lionel tem três opções de passe que empurram a linha defensiva para o próprio gol. Mas ele é Messi e arranca pelo flanco esquerdo até finalizar e marcar o terceiro. O Barcelona busca Messi, gira ao seu redor.
Suárez entrega a bola ao craque e lhe fornece opções somadas aos espaços. Lionel tem três opções de passe que empurram a linha defensiva para o próprio gol. Mas ele é Messi e arranca pelo flanco esquerdo até finalizar e marcar o terceiro. O Barcelona busca Messi, gira ao seu redor.

Também aqui no portal, Gabriel Corrêa fez dois textos excelentes sobre o Barcelona e abordou essa fórmula Messi. No texto “Messi como ponto de partida”, feito no início da temporada, observou ser o argentino a mola propulsora do volume de jogo e também observou de forma cirúrgica que essa centralização no craque proporcionaria a bola para Rakitic, transformaria Alba em extremo e Suárez se tornaria um caçador de espaços para Messi, mais localizado pela esquerda. Ou seja, o coadjuvante perfeito.

E temos visto Messi procurando mais nessa temporada Iniesta e Rakitic pelo centro, assim como os extremos e Suárez. Lionel também necessita dessas associações triangulares para ser Messi, faz parte de sua formação como jogador, de sua essência, além de lhe conferir conforto ao transitar pelo gramado com linhas de passe para recepciona-lo. A falta de Neymar foi suprida com o retorno a uma supervalorização de Messi, o que explica o grande número de gols e participações em jogadas de gol.

Digo “supervalorização” porque o atleta é protagonista desde sua explosão no planeta bola, mas, neste time de Valverde, podemos dizer que há certa supressão (mínima aceitável) de alguns dogmas coletivos para aproximar Messi do gol. É o seu giro livre que proporciona o coletivo em fase ofensiva. Nosso companheiro salientou muito bem no Guia das Oitavas da UCL que mesmo em outra concepção tática usada por Valverde, Messi continua sendo o centro das atenções.

“Os mecanismos do Barcelona são claros e variam apenas com a escolha das peças pelo lado direito”. (Imagem e legenda de Gabriel Corrêa). Nesse contexto, Paulinho fecha pelo meio e Sergi Roberto fornece amplitude pela direita. Messi continua livre circulando.
“Os mecanismos do Barcelona são claros e variam apenas com a escolha das peças pelo lado direito”. (Imagem e legenda de Gabriel Corrêa). Nesse contexto, Paulinho fecha pelo meio e Sergi Roberto fornece amplitude pela direita. Messi continua livre circulando.

Como bem observado pelo nosso craque analista, “no ataque, Lionel Messi é o início e fim do sistema”. Quando Paulinho entra, Messi continua atuando pelo centro, buscando a entrelinha para ter chance de avançar e destruir, seja definindo ou municiando os companheiros com assistências precisas. Parafraseando Raul Seixas, podemos dizer que Messi é o início, o fim e o meio desse Barcelona que vai lutar pela sexta Liga dos Campeões. Ele proporciona e decide. Ele é o próprio jogo.

4-4-Messi-1: a teia e seus triângulos coexistem com o craque que, livre pelo tablado, parece não sentir os efeitos do tempo e desfila em campo o melhor de seu futebol.
4-4-Messi-1: a teia e seus triângulos coexistem com o craque que, livre pelo tablado, parece não sentir os efeitos do tempo e desfila em campo o melhor de seu futebol.

Defensivamente, o Barcelona tenta pressionar rapidamente a saída do adversário desde os zagueiros. Podemos dividir essa pressão em duas fases: a primeira desenha um 4-3-3 disfarçado, com Suárez avançando pela esquerda e Messi no centro; caso o adversário consiga avançar dessa primeira abordagem, o time se fecha em duas linhas mais simétricas com Iniesta atuando como extremo à esquerda. Mais uma vez, Valverde mistura preceitos do 4-3-3 e do 4-4-2 para supervalorizar o melhor jogador do mundo.

Chegamos as quartas da Champions e este é o momento de traçar a estratégia para o tiro final da temporada. Os jogos diante do Chelsea agradaram Valverde e os próprios atletas, principalmente os que estão juntos desde o tempo de Guardiola. Muito do que Pep prezava se enxerga nesse Barcelona menos controlador, porém mais letal. Messi ocupa terrenos centrais e isso o aproxima dos meias, assim como circula por todo o campo para confundir e depois atacar de frente, com a defesa já em estado de urgência.

Messi joga em uma posição entre as linhas difícil de identificar. Apesar da liberdade total, existe um padrão mínimo em seu comportamento sem a bola. Quando não se encontra como segundo atacante de costas para o gol, cai pela direita formando uma associação com o extremo e Rakitic, confundindo os marcadores para atacar a área de frente, com espaço para decidir.
Messi joga em uma posição entre as linhas difícil de identificar. Apesar da liberdade total, existe um padrão mínimo em seu comportamento sem a bola. Quando não se encontra como segundo atacante de costas para o gol, cai pela direita formando uma associação com o extremo e Rakitic, confundindo os marcadores para atacar a área de frente, com espaço para decidir.

O modelo de iniciar o time a partir de Messi está definido desde o início da temporada, mas, como o craque cresceu dentro do esquema, de forma consequente também fez o esquema se tornar perigoso para os grandes rivais, mesmo sem tanto controle e com menos chances de gol de outrora. A eficácia está na objetividade que Messi proporciona ao receber com certa liberdade no último terço do tabuleiro.

Valverde melhorou a eficácia dos passes e aumentou a média de passes com Messi circulando pela teia triangular com liberdade. Na zona de finalização, os toques curtos e o trânsito do argentino proporciona superioridade e diminui a chance de perder a bola. E, quando Messi recebe com uma mínima condição de expor sua genialidade, a chance de gol é quase uma certeza. Quando Messi tiver bem, esse Barcelona será altamente competitivo e cirúrgico.

Nem 4-3-3, nem 4-4-2. Contra a Roma, a esquemática com Dembelé aberto pela direita deve ser mantida, mesmo com Paulinho sendo ótima opção para o jogo físico que teremos pelo centro. Ocorre que, com Dembelé, o Barcelona tem mais movimentação e alarga ainda mais o adversário. As infiltrações de Paulinho não fazem falta nesse contexto porque Messi passa a mergulhar pela direita em todas as oportunidades que conquista. Independentemente do molde, a cada jogo o Barcelona se transforma mais em Messi e ao seu redor gira o jogo.

Talvez, desde a época de falso nove, quando se consagrou com Guardiola e outros expoentes daquela geração, Messi não tenha tanto protagonismo como agora. Com Suárez voltando a fazer gols nessa reta final, Valverde tem ainda mais motivos para sorrir. Se Messi estiver bem o Barcelona também estará e, assim, poderá suprimir adversários que tenham conjuntos coletivos mais equânimes e ajustados, como o Manchester City de Guardiola. Mais do que nunca Messi é o jogo e suas estripulias podem trazer mais uma Champions para o Barcelona.


http://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/liga-dos-campeoes/jogo/14-03-2018/barcelona-chelsea/

http://www.maisfutebol.iol.pt/liga-campeoes/sporting/barcelona-o-camaleao-tatico-de-valverde-com-um-super-messi

https://andrerocha.blogosfera.uol.com.br/2018/03/14/o-que-e-lionel-messi/

https://footure.com.br/efeito-messi/

https://footure.com.br/guia-das-oitavas-de-final-da-ucl-parte-ii/

https://footure.com.br/messi-como-ponto-de-partida/

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Gabriel Corrêa

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