A vez dos jovens no Gran Parque Central

Após anos sofrendo com equipes envelhecidas e de baixo nível competitivo no cenário continental, o Nacional busca na juventude a receita para voltar aos tempos de glória no Gran Parque Central

Há um ano, o Nacional estreava em mais uma Copa Libertadores da América, contra o Zamora, fora do Gran Parque Central, com um time repleto de veteranos. Esteban Conde, Marcos Angeleri e Gonzalo Bergessio foram alguns dos jogadores de grande rodagem a entrar em campo naquela ocasião, fazendo parte de uma escalação que tinha média de idade batendo os 28 anos. Além deles, outros atletas de idade mais avançada como Gustavo Lorenzetti, Álvaro Pereira e Mathias Cardaccio eram bastante utilizados, o que colaborava para, por vezes, subir essa média.

12 meses depois, a história é diferente. Na última quinta-feira, o tricolor de Montevidéu deu seu pontapé inicial na Libertadores 2020, diante do Alianza Lima, dando espaço a diversos jovens. Dos 11 titulares, 9 tinham idade igual ou inferior a 23 anos. As duas únicas exceções foram o goleiro Luís Mejía (28 anos) e Sebastián Fernández (34 anos). A média de idade do time que venceu os peruanos? Incríveis 23,7 anos, disparada a menor dentre os 32 clubes nesta primeira rodada.

Essa profunda mudança no elenco vem em boa hora, afinal, o Nacional chega para esta temporada com bons valores emergindo em todos os setores, pegando carona no título recente da Libertadores Sub-20 em 2018. Da linha de defesa até o comando de ataque, há potencial para que a equipe comandada por Gustavo Munua eleve o seu nível técnico e converta isso em lucro nos cofres. E o exemplo recente de Matías Viña, contratado pelo Palmeiras e rendendo 3,5 milhões de euros ao clube, ajuda a nutrir essa expectativa.

Os protagonistas da nova geração tricolor

O miolo de zaga do Nacional não passou batido neste processo de reformulação. A dupla formada por Mathías Laborda (20) e Guzmán Corujo (23) se complementa bem em características. Se Laborda oferece boa antecipação, velocidade de recuperação e consegue auxiliar na saída de bola com mais qualidade, Corujo faz valer a sua potência física. Com 1,89m de altura, se impõe no jogo aéreo e exibe muita firmeza na hora de disputar espaços para tomar a bola. Não vai muito bem no trabalho com a posse, embora execute bons lançamentos em direção ao ataque.

Escoltando ambos pelos lados, Mathías Suárez (23) e Agustín Oliveros (21) pintam como alternativas não só para o Nacional, mas também para a Seleção Uruguaia num futuro próximo. Os dois chegaram neste ano ao clube e ainda buscam sua melhor adaptação. Suárez, formado pelo Defensor, foi cedido por empréstimo pelo Montpellier (FRA) e acumula convocações em todas as categorias da Seleção Uruguaia. Já Oliveros foi contratado junto ao Racing (URU) e participou do Torneio Pré-Olímpico em janeiro. Os laterais são bastante semelhantes nas valências e nos pontos fracos. Compartilham a boa chegada ao ataque e a qualidade no cruzamento, mas pecam em fase defensiva com imprecisão no momento do combate.

Abrindo o meio-campo, Gabriel Neves (22) e Felipe Carballo (23) são os principais responsáveis por sustentar a construção de jogo do Nacional. Neves, sobretudo, se destaca por sua mobilidade e sua inteligência com a bola no pé. Jogador de leitura refinada e visão de jogo, acrescenta um ritmo diferenciado ao time, sabendo sempre o momento de acelerar ou pausar as jogadas. Ao seu lado, Carballo dá a intensidade e a chegada em velocidade típica do futebol uruguaio, sendo um condutor de bola eficaz pelo corredor central e capaz de levar perigo à meta adversária de longas distâncias com seu chute.

Gabriel Neves é uma das estrelas do Gran Parque Central
O dínamo Gabriel Neves (em amarelo): presente em todos os corredores para ajudar na circulação da bola e guiar a construção ofensiva da equipe uruguaia

Mais abertos no setor intermediário, estão talvez os dois jogadores de maior projeção dos bolsos. Brian Ocampo (20) e Santiago Rodríguez (20) são um verdadeiro inferno para as defesas rivais. Extremamente habilidoso e veloz, Ocampo não tem medo de partir para cima. Sabe usar bem seu corpo para proteger a bola, encontrando facilidade também para driblar nos espaços mais curtos do campo. Quando posicionado pela direita, costuma levar a bola até a linha de fundo para buscar o cruzamento. Pela esquerda, tem agilidade para fazer cortes para dentro e buscar o passe de ruptura.

Oposto a Ocampo, Rodríguez também começa a brilhar. Entretanto, sua melhor versão surge nas tramas coletivas. Apesar de ser um extrema, se movimenta muito em regiões mais centrais, principalmente para buscar o desmarque curto em cima dos zagueiros e atacar espaços em tabelas rápidas. Além disto, é dono de um forte poder de finalização e de intermináveis recursos de passe. Mesmo apertado pela marcação, consegue aliviar a pressão encontrando companheiros livres em situações improváveis. Como atua muito próximo da área, boa parte destes passes acabam gerando oportunidades de gol ou mesmo assistências.

No centro do ataque, Thiago Vecino (21) vem se afirmando cada vez mais. Ainda não balança as redes com a frequência esperada pela torcida, mas é incansável na disputa pela bola com os zagueiros. A força física e mental que detém merece destaque. Leva sucesso nas disputas de bola pelo chão e pelo alto, e não se desestabiliza diante de momentos de pressão. Consegue manter o foco na maior parte do tempo para executar o seu papel, algo louvável para um jogador jovem. A noção de posicionamento que possui dentro da área é outro ponto que chama a atenção, facilitando seu serviço na hora de definir as jogadas.

Os próximos da fila no Gran Parque Central

E isso é apenas parte do que o Nacional tem em mãos para construir seus próximos passos. Fora estes que já recebem oportunidades mais constantes, alguns nomes como Emiliano Martínez (20), Joaquín Trasante (20) e Joaquín Sosa (18) já estão na fila para assumir maior protagonismo logo adiante. Apenas o tempo e a competência em suas participações vão dizer se todos eles conseguirão vingar em alto nível competitivo. Mas para o clube, de momento, basta ter a noção que há debaixo de seu nariz uma mina de diamantes prontos para serem lapidados. O futuro tem tudo para ser próspero no Gran Parque Central.

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Dimitri Barcellos

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