Rayan Cherki, a nova joia da cidade encantada de Lyon

Aos 16 anos, o jovem Rayan Cherki é tratado como uma das maiores promessas da França na atualidade; elogiado por Mbappé e protegido por Jean-Michel Aulas e Juninho Pernambucano do assédio de outros clubes, hora de conhecer mais uma cria do Lyon

Imagina possuir apenas 16 anos e ter Kylian Mbappé, outro jovem, porém, de 21 anos, campeão do mundo e estrela de um dos clubes mais ricos do planeta, como seu maior fã? Parece até um comercial mirabolante, mas essa é a história de Rayan Cherki, nascido e criado em Lyon para o Lyon.

Há um dialeto na região que inspirou o apelido do clube. Os torcedores da equipe francesa se autoproclamam “Les Gones”, que significa “As Crianças”. De certa forma, o Olympique Lyonnais é bastante jovem se compararmos com outras equipes de tradição na França, como Bordeaux (fundado em 1881) e Olympique de Marselha (fundado em 1899), por exemplo.

“Não fale muito sobre a idade, hein Rayan Cherki”, disse Mbappé para o “parça” no Twitter.

Fundado em 1950, o jovem clube francês ficou famoso no Brasil devido ao heptacampeonato nacional conquistado sob a batuta de Juninho Pernambucano, que hoje é diretor da equipe. Essa juventude, não apenas relacionada à idade do clube, inspira e denota o que hoje é um case de sucesso no país mais glamoroso da Europa.

Karim Benzema, Nabil Fekir, Ludovic Giuly, Alexandre Lacazette, Anthony Martial, Samuel Umtiti, Hatem Ben Arfa, Loic Remy, Alassane Pléa e Corentin Tolisso são alguns nomes formados pela famosa academia dos Gones. Um fato interessante: os quatro primeiros nasceram na cidade de Lyon e são, justamente, os mais famosos dessa lista. Apesar de não ter tido uma carreira futebolística notória, o atual treinador da seleção francesa e campeão do mundo, Raymond Domenech, é nascido na cidade e fora revelado pelo OL.

A cidade de Lyon é a terceira maior da França, sendo a segunda em área urbana no país. Especificamente, ela possui população com pouco mais de 470 mil habitantes, porém, se formos considerar toda a área urbana, a metrópole de Lyon ultrapassa os 2 milhões de moradores. É até estranho pensar que antes de 1989, o clube, que está localizado num ponto que é historicamente famoso pela gastronomia e produção de seda, e que cresceu economicamente nos tempos modernos por ser um centro banqueiro, de indústrias químicas e biotecnias, passou tanto tempo na segunda divisão francesa.

O final dos anos 1980 é essencial para entender o que virou o atual Lyon. Jean-Michel Aulas, empresário do ramo da tecnologia, virou dono e presidente do clube, assumindo a bronca em 1987, quando a equipe estava encrostada na segunda divisão e afundada em dívidas. O magnata francês conseguiu sanar os problemas financeiros do Lyon e, em 1989, conquistou o acesso à elite do campeonato nacional, de onde o clube nunca mais saiu.

Apesar de ser um clube pioneiro na utilização de jovens na equipe principal – na França, tornou-se obrigatório um centro juvenil em 1973 –, o Lyon, antes de Aulas, nunca teve condições de aprimorar sua academia. Com a chegada do empresário, os investimentos explodiram e hoje o centro de formação de atletas dos Gones é um dos mais modernos e condecorados da Europa.

Cerca de £10 milhões são separados do orçamento do clube para investimentos na infraestrutura das categorias de base por temporada. Além disso, o Lyon dispõe de nove scouts espalhados por toda região da Auvérnia-Ródano-Alpes, onde se concentra o maior número de jogadores registrados na federação francesa (excluindo Paris). Além de observar jogadores avulsos, o clube faz um raio-x nas equipes amadoras da região, transformando-se num conglomerado de atletas nascidos nas cercanias.

É nesse processo meticuloso de scouting que o Lyon descobriu a sua mais nova joia: Rayan Cherki, que nasceu ali mesmo na cidade do clube. O queridinho de Mbappé é taxado por muitos especialistas como a maior revelação da história do clube e, possivelmente, uma liderança francesa para as próximas gerações, que conta com Florent da Silva, Amine Gouiri, Titouan Thomas e Melvin Bard.

Com apenas 16 anos, Cherki já debutou profissionalmente com a camisa do Lyon. Esse momento histórico aconteceu em outubro de 2019, pela Ligue 1, em que os Gones empataram por 0x0 com o Dijon. Um mês depois, em novembro, Cherki estava estreando na Champions League, contra o Zenit, após substituir Maxwell Cornet. No final do ano, em dezembro, ele atuou pela primeira vez por 90 minutos contra o Toulouse. Em janeiro de 2020, ele marcou seu primeiro gol como profissional, pela Copa da França, na vitória por 7×0 sobre o Bourg-Péronnas. Alguns dias depois, contra o Nantes, ainda pela Copa, o monstrinho fez dois gols e deu duas assistências na vitória por 4×3 de sua equipe.

Rayan Cherki Lyon
Rayan Cherki, a direita, chegou a completar 18 dribles em uma única partida pela pela Youth League. Um recorde na competição. Foto: Getty Images.

No entanto, por mais que esses feitos sejam notáveis, Cherki está cansado de pular etapas e chocar quem o segue. Em setembro de 2018, com apenas 15 anos e 33 dias, o meia-ofensivo do Lyon se tornou o jogador mais jovem a marcar pela Youth League (uma competição de nível sub-19), na goleada por 4×1 sobre o Manchester City, recorde que fora batido por Youssoufa Moukoko, do Borussia Dortmund, em 2020, com 14 anos e 33 dias.

Foi justamente na Youth League que Cherki viveu seus melhores momentos, levando em consideração o grau de importância e dificuldade da competição. Na atual edição, que retornará em agosto após a paralisação devido ao coronavírus, Cherki marcou cinco gols e deu uma assistência em quatro jogos. Em 2018/19, quando tinha apenas 15 anos, foram cinco participações e um gol (aquele contra o City).

É muito comum o jogador “extraclasse” flutuar entre divisões na Europa. Quando o nível de desempenho é muito alto, ele geralmente é alçado para categorias maiores, reforçando times que disputam títulos mais importantes. Rayan Cherki, por exemplo, defendera ao mesmo tempo a equipe sub-19 e o Lyon B em 2018 e a equipe sub-19 e o time principal do Lyon em 2019/2020.

Entretanto, o processo precisa ser conduzido com extrema cautela para não queimar o jogador. No Lyon, o cuidado com a parte psicológica do atleta é levado a serio. Os jogadores da academia, seja no masculino ou no feminino, são avaliados a cada três meses pelos profissionais da área, sendo que todos possuem um plano de carreira detalhado com informações essenciais quanto à personalidade, mostrando até o ambiente familiar no qual eles estão inseridos. Além disso, o Lyon é referência quanto ao tratamento da pressão psicológica sobre a qual os atletas estão submetidos desde pequenos, oferecendo-lhes acompanhamento especializado desde os 12 anos, aulas de yoga, hipnoterapia e aulas de respiração.

Esses pequenos detalhes fazem com que muitos dos oriundos da base do Lyon consigam desempenhar grandes jogos, em grandes palcos e em momentos decisivos. Karim Benzema é um dos maiores exemplos de qualidade técnica e resiliência mental no futebol europeu atualmente. É graças a esse cuidado que Anthony Lopes e Houssem Aouar são titulares incontestáveis da equipe principal, tendo estreado com pouca idade. Com a cabeça boa, o jogador consegue refinar suas habilidades com mais facilidade.

Rayan Cherki chegou ao Lyon em 2010, quando tinha apenas sete anos de idade. Os franceses são adeptos do futsal no inicio da carreira dos atletas em suas academias, que acaba justificando a maciça quantidade de jogadores ofensivos revelados pelos Gones nos últimos anos. Assim como vimos no texto sobre Naci Ünüvar e o Ajax, o Lyon possui uma filosofia semelhante ao priorizar o futebol ofensivo em suas raízes. O drible, a capacidade inventiva e a versatilidade são incentivados desde os primeiros passos.

Florent da Silva, camisa 5, e Rayan Cherki, camisa 10, possuem uma ligação especial desde o futsal do Lyon.

Portanto, pode-se dizer que Cherki possui um cartel de habilidades impressionante. O franco-argelino consegue combinar velocidade, drible, domínio orientado, visão de jogo e finalização. Ademais, o francês também é um jogador multifuncional, com boa leitura tática do jogo, podendo atuar como atacante (especialmente como falso 9), extremo invertido e, na melhor das hipóteses, como meia-ofensivo, sendo um genuíno camisa 10, daqueles que são capazes de aliar a fantasia circense com efetividade.

Apesar de fazer parte da tão aguardada geração 2003, Cherki demonstra uma peculiaridade com relação aos outros nomes apontados como promessas. O meia francês possui uma compleição física avantajada, sendo ágil mesmo medindo 1,76m com apenas 16 anos de idade. Obviamente, ele ainda vai crescer e vai ganhar ainda mais massa muscular. Essa é uma vantagem importante nos primeiros anos do atleta, que atua preferencialmente no último terço do gramado, local especifico do campo onde há muito enfretamento pela posse de bola.

Claro, a técnica pode ser muitas vezes suficiente para manter o controle da posse, porém, ter a vantagem corporal, especialmente visando o choque, é um ganho considerável para o jogador moderno.

Com o comportamento de um adulto, Rayan Cherki é objeto de desejo de todos os gigantes europeus, tendo seu nome ventilado em Real Madrid e Manchester United há muito tempo. A joia é bastante comparada a Hatem Ben Arfa, um dos franceses mais técnicos já produzidos pelo Lyon. Outros dizem que ele é uma versão destra de Nabil Fekir. Sabendo disso tudo, Juninho Pernambucano já amarrou o garoto com um contrato novo, cuja extensão vai até 2022.

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Confiante, Cherki está acostumado a decidir jogos grandes para o Lyon nas categorias de base. Recentemente, contra a Atalanta, o francês marcou o gol de empate em 3×3 nos acréscimos e converteu o pênalti decisivo que classificou o Lyon para as quartas da Youth League.

Com relação à seleção francesa, Rayan Cherki ainda não conseguiu uma convocação oficial para defender os Bleus. O meia participou de alguns amistosos contra a Dinamarca pela sub-16, mas ao contrário do que se vê com outros nomes da geração dele, a hora de Cherki ainda não chegou, talvez pela concorrência no setor.

A ideia do Lyon é envolvê-lo cada vez mais na equipe principal. Em agosto ele completa 17 anos, porém, Cherki tem atuado com regularidade no torneio preparatório do OL para a Champions League, que retorna em agosto, pois o campeonato francês fora prematuramente finalizado pela federação.

As atuações nos treinos têm agradado bastante a Rudi Garcia, lhe garantindo a titularidade em duas partidas seguidas nessa preparação. A promessa francesa tem chamado a atenção pela incrível evolução tática no jogo. Contra o Nice, Rayan atuou como meia-ofensivo, onde se sente melhor, e a capacidade associativa do garoto e a leitura dos espaços entre as linhas adversárias ressoaram mais do que o próprio jogo. Ele já demonstrava essa compreensão em atuações pela equipe juvenil, sobretudo quando atuava ao lado de Florent da Silva e Amine Gouiri, mas a evolução em tão pouco tempo foi chocante.

Especialmente nessa partida contra o rival francês, Cherki teve muita liberdade para procurar o jogo nos três terços do campo, muitas vezes iniciando jogadas na primeira linha com os defensores. Na segunda partida, contra o Rangers, Rudi Garcia o utilizou como extremo-invertido, jogando na esquerda (o pé é destro). Cherki atuou por mais minutos na derrota por 2×0 do que na vitória por 1×0. Muita versatilidade, ampliando o leque da equipe principal, o que é o primeiro objetivo na revelação de jogadores.

Graças a enorme habilidade no drible, Cherki se torna uma constante ameaça por ser capaz de resolver jogadas em um curto espaço de grama. Ele cria muitas oportunidades de gols, principalmente em jogadas de 1×1. Tirar a bola dos pés de Rayan é uma tarefa ingrata, pois a chance de levar um “rolinho” é enorme (seu drible favorito).

Alguns dos melhores momentos de Cherki contra o Rangers, quando atuou mais fixo pela extrema-esquerda, apesar de alguns momentos ter desempenhado a função de interior no meio-campo visando quebrar a linha adversária, tanto com passe ou com drible em progressão.

Na equipe sub-19, sob o comando de Eric Hély, a promessa francesa atuou no sistema 3-4-3, onde formava o trio de ataque com Amine Gouiri pela esquerda e Modeste Duku pela direita, sendo ele desempenhava a função de falso 9. Esse sistema potencializava as principais características de Cherki, porque atrás dele haviam dois meias “área-a-área”, que pisavam dentro da grande área para finalizar, enquanto Cherki muitas vezes saia da referência. Rudi Garcia é adepto do 3-4-3 como formação base e isso pode favorecer Cherki numa adaptação mais rápida. O 4-2-3-1 também é um esquema tático propício para o francês, especialmente se desempenhar a função de meia-ofensivo.

Sua capacidade associativa, dribles e finalização forte de perna direita fazem com que ele seja letal de frente para o gol. Portanto, tratá-lo como um atacante fixo é perda de tempo e qualidade. Quanto mais liberdade, melhor.

Costuma-se dizer que a idade é apenas um número. Quando tudo é esmiuçado e programado, a chance de se tornar bem-sucedido é maior. Olhando por esse prisma, não é parece tão absurdo ver um moleque de 16 anos atuando em alto nível por uma equipe grande na Europa, não? Em Lyon as crianças estão muito bem.

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Caio Nascimento

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