Análise: Arsenal x Liverpool e a batalha tática entre dois dos melhores treinadores do mundo

Os detalhes por trás da vitória de Arteta sobre Klopp em Londres

No último domingo, tivemos um dos jogos mais aguardados da temporada da Premier League 23–24. Uma batalha tática entre dois dos melhores treinadores do mundo na atualidade: Arteta e Klopp. Ambos treinadores tiveram muitos desfalques de peso para a partida e esses desfalques influenciaram na escalação e em seus planos de jogo. Nos Gunners, ficaram de fora nomes como: Partey, Gabriel Jesus e Timber. Já nos Reds: Salah e Szoboszlai, além de Darwin Nunez que teve de começar no banco.

O Arsenal recebeu o rival Liverpool no Emirates Stadium, num jogo que poderia alçar os Reds a uma vantagem de oito pontos na tabela da Premier League em caso de vitória. Caso os Gunners vencessem, a diferença iria para apenas dois pontos. O resultado de 3–1 a favor do Arsenal demonstrou a superioridade do time de Mikel Arteta dentro da partida, mas como esse resultado foi construído? Confira na análise do jogo, alguns dos fatores que levaram Arteta e seus comandados a vitória:

A pressão:

  1. Desde o início do jogo, o que se viu do Arsenal foi uma equipe focada, com intensidade e em comunicação, buscando vencer os duelos e limitar o jogo do time de Klopp. Tanto que na primeira etapa, o Liverpool não teve nenhum chute a gol. Mas isso não significa que não conseguiu criar nenhum tipo de perigo para o Arsenal.
  2. O Arsenal pressionou o Liverpool na maior parte do tempo, utilizando um 4–4–2 que acabava virando um 4–3–3, seja com Jorginho subindo a marcação ou com Saka se juntando a primeira linha de Odegaard-Havertz. O plano de Arteta era retirar o acesso aos jogadores na entrelinhas e apostar nos duelos defensivos, visto que em muitos momentos sua linha defensiva ficou na marcação individual dos atacantes adversários e na maior parte deles conseguiu se sobressair. Toda essa pressão e intensidade fez o Liverpool terminar o primeiro tempo sem chutes ao gol do Arsenal mesmo com o gol de empate.

O Liverpool também conseguiu pressionar o Arsenal em alguns momentos do confronto, especialmente nos tiros de meta, onde vimos as duas equipes adotando praticamente a mesma alternativa para sair da forte pressão: bola longa para o atacante(para ganhar o duelo ou desestabilizar o zagueiro) e disputa de segunda bola para atacar espaço nas costas quando possível. Neste aspecto, a presença de Havertz foi fundamental no ataque do Arsenal, visto que entrega presença física e estatura, além de mobilidade, permitindo manutenção da bola.

O Liverpool inclusive conseguiu o empate dessa maneira:

A batalha do jogo entrelinhas:

Com bola, Arteta utilizou em muitos momentos do jogo uma espécie de 4–2–2–2, visto que a linha de 4 se mantinha (Zinchenko com liberdade para flutuar), Rice, Jorginho (muitas vezes mais adiantado como 8) e Odergaard e Havertz (sim, o centro-avante) faziam um quadrado no meio, e Saka e Martinelli eram responsáveis por alargar o campo e também atacarem a profundidade no espaço as costas da zaga do Liverpool.

A estratégia de Arteta funcionou muito bem no primeiro tempo, visto que o Liverpool marcava no 4–1–4–1 e, de certa forma, adotando uma postura mais passiva, principalmente para o time do treinador alemão que é marcado pela intensidade. Isso causou problemas principalmente para MacAllister, que ficava sobrecarregado na marcação de Havertz e Odegaard, permitindo recepções na entrelinha do meia norueguês que clareavam o jogo para o Arsenal acionar os homens de frente, principalmente Martinelli que tinha como objetivo atacar o espaço deixado nas costas de Arnold e também vencer seus confrontos contra o lateral inglês. O gol do Arsenal para abrir o placar foi uma aula desses conceitos.

Quando o Arsenal perdia a bola na partida, atuava como o Liverpool de Jurgen Klopp em seu auge, em um comportamento que deixou o treinador alemão famoso mundialmente desde seus tempos de Borussia: o Gengepressing, ou a pressão pós-perda imediata.

Já o Liverpool sofreu para construir e acessar as entrelinhas, principalmente no primeiro tempo, também a organização do rival.

  1. O Arsenal, que pressionou muito, também não abriu mão da estratégia e organização. Buscava defender em um 4–4–2 bem sincronizado e compacto no bloco médio, dando espaço para os zagueiros do Liverpool e para Alisson, mas tentando negar qualquer oportunidade de passe entrelinhas e aproximando seus jogadores. Foi o que funcionou durante o primeiro tempo, quando o Liverpool teve muitas dificuldades em acessar Gravenberch, Gakpo e Diaz.
  2. O Liverpool começou o jogo construindo com os dois zagueiros e Alisson se juntando para formar muitas vezes uma saída com três. MacAllister aparecia na frente da dupla de zagueiros para buscar a bola e criar as jogadas. Mesmo com a aparente superioridade numérica na primeira linha, o Liverpool teve dificuldades em dar dinâmica ao jogo com bola, porém quando conseguiam acessar o entrelinha buscavam principalmente o lado direito do campo, com Arnold em amplitude criando jogadas de cruzamento. Outra alternativa era tentar diagonais longas para Jota ou Diaz, abertos na esquerda, mas que tiveram dificuldades no duelo contra Ben White.

Com a clara superioridade e domínio do Arsenal no primeiro tempo, Klopp decidiu realizar algumas modificações.

Variações táticas e substituições:

As variações táticas entre os dois treinadores envolveram tanto estruturas, quanto a troca de jogadores com características individuais diferentes, entrando na partida e modificando alguns duelos e dinâmicas de jogo.

No segundo tempo, o Liverpool voltou do intervalo com outra postura, conseguiu acessar mais as entrelinhas nos primeiros 10 minutos e assustou o Arsenal em duas oportunidades. Adotou prioritariamente o 4–3–3 para defender, distribuindo melhor as distâncias, com maior sincronia e diminuindo a influência de Havertz e Odegaard no jogo entrelinhas. O treinador dos Reds também realizou modificações na equipe: colocou Nunez no ataque (saiu Gakpo) para buscar mais dinâmica e profundidade; Robertson entrou no lugar de Arnold (Joe Gomez foi para a lateral-direita); Elliot entrou no meio (saiu Gravenberch). Com essas modificações e o placar empatado, o jogo ficou mais nivelado e ainda mais disputado.

No Arsenal, a entrada de Kiwior no intervalo (saiu Zinchenko) conferiu mais solidez defensiva pelo lado do campo, com o polonês atuando no posicionamento típico de lateral-esquerdo. E se havia dificuldade em acionar os principais jogadores da equipe no primeiro tempo no entrelinhas, Arteta focou em ganhar o espaço as costas da zaga do adversário, com Havertz sendo presença importante nas disputas aéreas e Martinelli atacando espaço. Foi assim que saiu o segundo gol (que contou com falha de Alisson e Van Djik).

Após o gol, as entradas de Trossard e Nelson nos lugares de Saka e Martinelli permitiram ao Arsenal manter a entrega e solidez defensiva, e continuar com folego para manter a vantagem defendendo e tentar atacar espaços, obviamente com uma qualidade técnica menor, mas o suficiente para ampliar a vantagem no final com Trossard e consolidar o 3–1 após expulsão de Konaté.

Os detalhes no jogo de futebol:

O jogo também deixou claro, a importância de aspectos básicos no futebol: a comunicação e concentração. E que por mais que a organização e o planejamento sejam muito importantes (visto o grande nível tático da partida e as variações adotadas), os detalhes (as vezes aliados ao inesperado) podem decidir jogos. Falhas como essas não deveriam mas podem acontecer, mesmo em jogos desse nível.

Em ambos os gols, tanto o do Liverpool antes do intervalo, quanto o da virada do Arsenal, fica claro o que a falta de comunicação e um pequeno desvio de concentração podem causar num jogo. Em ambos os lances, a indecisão do zagueiro com o goleiro permitem ao adversário marcar o gol.

Mesmo com os detalhes decidindo os gols, o Arsenal fez o adversário terminar a partida com o maior xG (gols Esperados) contra da história de Jurgen Klopp na Premier League: 3,52. Uma medida clara da superioridade na atuação e cumpriu com a ideia de seu treinador de dominar os adversários. O Liverpool teve 0,41 de xG na partida.

O confronto foi, sem dúvidas, um dos jogos mais interessantes taticamente na temporada da Premier League e provavelmente o último confronto entre Arteta e Klopp, pelo menos por enquanto, já que o alemão deixará o Liverpool no final da temporada. Até lá, certamente Klopp corrigirá algumas questões e contará com a volta de vários atletas nas próximas semanas para manter o Liverpool na busca pelos títulos da temporada. O Arsenal segue embalado depois dos últimos desempenhos e resultados para alcançar o Liverpool e o City na tabela da liga.

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