O Bahia de Roger à procura do protagonismo

Após sofrer em momentos cruciais na temporada passada, Bahia de Roger busca ser protagonista e controlador em todas as fases do jogo

Na temporada 2019, o Bahia de Roger ficou notabilizado por controlar os adversários em linhas baixas e explorar as transições ofensivas. No entanto, em momentos chaves do Brasileiro e Copa do Brasil, faltaram atletas com características para interpretar e lidar com a necessidade de se sobrepor ao oponente através do jogo apoiado. Não à toa as contratações pontuais promovidas por Roger Machado em 2020, sinalizam a incessante procura por ter uma equipe protagonista das ações do jogo em momentos distintos.

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Para entender e explicar a concepções de jogo, plataformas, planificações e estratégias adotadas neste início de temporada, O Footure imergiu no trabalho do técnico do BahiaRoger Machado.

Organização Ofensiva no Bahia de Roger

Construção

O momento ofensivo foi a fase do jogo pela qual o Bahia passou/passa por maiores transformações dentro da maneira de jogar. A equipe manteve a ideia de construção curta com alternância entre saída de 3 ou saída sustentada (4-1 ou 4-2). Mas se antes Nino Paraíba era o responsável por realizar a inicialização da organização ofensiva, atualmente, a função é executada pelo volante Gregore. Na saída de 3, Gregore sempre está de frente para o jogo. Modificando apenas o posicionamento, ora entre os zagueiros, ora pelos lados.

E quando o adversário cria situações para impedir a saída de 3, o Bahia utiliza a saída sustentada no 4-1 com Gregore buscando a bola de costas, girando rápido para ficar de frente e dando prosseguimento a jogada. Outro movimento comum na construção de jogo é Gregore assumir a posição de João Pedro, Flávio buscar o jogo de costas e João Pedro avança no campo ofensivo.

Criação

Adepto do jogo apoiado as contratações dos laterais João Pedro, Zeca, Juninho Capixaba; do meia-atacante Rodriguinho; e do ponta Clayson, nortearam uma mudança na dinâmica com a qual o Bahia busca criar jogadas. Com a posse de bola e ocupando o campo adversário, a equipe de Roger Machado, imprime uma alternância entre manutenção e progressão através da intensidade e direcionamento do passe, do princípio geral de superioridade numérica e dos estruturais de mobilidade, compactação ofensiva, apoio, amplitude no setor da bola, infiltração e profundidade.

Rodriguinho tem concedido maior fluidez as jogadas ofensivas do Bahia.
(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

E assim como na fase de construção, Roger Machado desenvolveu mecanismos diversos para a fase de criação. Ao atacar, o Bahia se posta no 2-3-5, utiliza os corredores laterais, na maioria das vezes 5 jogadores (lateral do setor da bola, 3 meio-atacantes e centroavante). Com isso, o lateral oposto fecha em diagonal pelo meio, na mesma altura um volante centraliza à frente dos zagueiros e outro se posiciona no setor da bola para ser uma opção de passe de retorno. Mas mesmo tendo o ataque com 5 jogadores como padrão, a forma com que o processo criativo acontece difere à depender do setor do campo. Uma vez que, o lado direito possui uma propensão maior a associação e o lado esquerdo se apresenta como mais direto.

Com isso, ao criar situações pelo lado direito, João Pedro pode se posicionar em amplitude, na profundidade ou no meio-espaço para explorar a boa condução, infiltração e acabamento das jogadas. Elber pode ocupar os mesmos espaços citados e aliar a condução, duelos 1×1 e a melhora na definição das jogadas. Já Rodriguinho, busca o corredor central ou o meio-espaço próximo à grande área para com a capacidade de 1 toque solucionar o problema que o jogo apresenta. Do lado oposto, Juninho Capixaba ataca o corredor esquerdo para explorar os cruzamentos, enquanto Clayson atua de fora para dentro sempre buscando conduzir ou 1×1 e Gilberto gera profundidade e abre o espaço para quem vem de trás.

Por sinal, quando Gilberto sai da referência em direção ao lado do campo, o espaço deixado é preenchido por Rodriguinho, Clayson e Elber como pode-se notar no primeiro gol contra o América de Natal. Além disso, não é raro observar as infiltrações, ultrapassagens e finalizações de fora da área dos volantes. Com isso, o time se mantém no 2-3-5. Entretanto, os dois laterais fecham pelo meio juntamente ao outro volante.

Finalização

Bahia de Roger
Artilheiro da equipe, Gilberto treina finalizações
(Foto: Felipe Oliveira)

Na fase de finalização a equipe do Bahia sempre busca ter ao menos três jogadores pisando à grande área para arrematar ao gol. Não por acaso, dos 15 gols marcados, 11 foram assinalados de dentro da grande área, 3 de finalizações de média distância e outro de pênalti. E as origens na maioria dos casos foram de cruzamentos ou lançamentos para infiltração. Quase metade dos gols (7) foram marcados por Gilberto. E todos dentro da grande área.

Transição Defensiva no Bahia de Roger

Bahia de Roger
Gregore é a peça chave na pressão ao portador da bola
(Foto: Felipe Oliveira)

Como apontado acima, o Bahia quando está instalado no campo ofensivo se estrutura no 2-3-5 com um balanço defensivo composto por 5 jogadores por trás da linha do bola. Podendo ser os dois zagueiros, dois volantes e o lateral do setor oposto da bola. Ou os dois zagueiros, um volante e os dois laterais. E ao perder a bola as diretrizes são cristalinas:

  • Pressão imediata ao portador da bola na região de perda;
  • Não conseguindo a recuperação, Gregore e Flávio vão à caça buscando impedir a progressão;
  • Enquanto o adversário é pressionado, os demais jogadores buscam retornar as posições de origem para se reorganizar;
  • A última linha de defesa sempre tem que estar com 4 jogadores.

Organização Defensiva no Bahia de Roger

Após a perda e a não recuperação da posse de bola, se reorganiza e entra em organização defensiva. Nesta fase do jogo, o Bahia se defende em 4-4-2/4-3-3 e 4-1-4-1. Com a entrada de Rodriguinho essa última variação não foi mais utilizada, pois o meia-atacante se juntou à Gilberto ao não participar efetivamente da marcação em linhas baixas.

Utilizando-se de uma marcação mista (jogadores obedecem zonas de atuação, mas buscam encaixes), o Bahia se organiza em duas linhas de quatro onde procura pressionar o portador da bola e induzir o oponente a lateralizar o jogo para que fique mais longe do próprio gol e através da superioridade numérica e qualitativa consiga pressionar e impedir a progressão. Mas nem sempre é possível. As vezes pela qualidade do adversário ou por erros de execução do próprio time. E quando a pressão no portador da bola não é bem executada e há tempo e espaço, a última linha corre para trás com o objetivo de não receber uma bola nas costas.

Já em linha alta, o Bahia se estrutura no 4-1-3-2 e busca realizar a pressão no portador da bola para dificultar a ação do adversário ficar de frente, forçando retornar a bola para trás ou ao erro. Porém, neste cenário existe um aumento dos riscos de desestruturação. E com isso, a equipe fica exposta, caso não consiga operacionalizar bem os mecanismos. Como acontece no frame contra o Nacional. Outro mecanismo interessante é a manutenção da última linha sustentada. Ao dar o lado para o adversário, o lateral (João Pedro ou Juninho Capixaba) do setor da bola diminui o espaço (encaixa) no portador da bola ou em uma possível linha de passe cogitada. Com isso, há uma quebra da linha.

No entanto, de forma coordenada e através de um sistema de coberturas executado por Gregore ou Flávio o espaço deixado é preenchido e a linha com 4 defensores instantaneamente restabelecida. Flávio também tem a função de realizar a pressão em campo contrário com a tentativa de tirar o o portador da bola da zona de conforto e forçá-lo ao erro.

Transição Ofensiva no Bahia de Roger

Clayson e Elber são as flechas lançadas nas transições ofensivas
(Foto: Felipe Oliveira)

Ao recuperar a bola, o Bahia vira a chave rapidamente. Saindo da fase de organização defensiva e passando para a de transição ofensiva. Na busca por aproveitar os espaços deixados pelo o oponente, Roger Machado tem em Elber e Clayson, os responsáveis por atacar o espaço e acelerar o jogo com as conduções e dribles no 1×1. Para que as flechas (Elber e Clayson) possam ser lançadas, o Bahia tira a bola da zona de pressão com toques curtos e trocando de corredor – participação efetiva de Rodriguinho, ou através de lançamentos em profundidade realizados por Juninho Capixaba e Gregore. Como parte do balanço ofensivo Gilberto é o responsável por gerar profundidade e abrir campo para que Elber e/ou Clayson avancem.

Diagnóstico Pré-liminar

O Bahia tem se mostrado uma equipe à procura do equilíbrio. As estatísticas apontam para isso. Não por acaso, é detentor da melhor defesa da Copa do Nordeste com 4 gols sofridos. E marcou 15 gols em 10 jogos na temporada. Entretanto, como esperado, não atingiu o ápice das formas físicas, técnicas, táticas e mentais. A equipe incorre em erros de movimentos coordenados no ataque. Por exemplo, a falta de agressividade à última linha de defesa adversária. Os jogadores buscam sempre receber a bola no pé, ao invés de atacar o espaço. E muita das vezes acarreta na falta de fluidez ofensiva. Um adendo interessante é que com as entradas de João Pedro, Juninho Capixaba e por último Rodriguinho, o conjunto do Bahia potencializou o jogo apoiado e teve um incremento substancial no acabamento das jogadas (cruzamentos, passes, lançamentos e finalização). No entanto, perdeu em agressividade sem a bola. Além disso, necessita de uma maior compactação ofensiva e defensiva para que o adversário tenha mais dificuldade em progredir. Esses são alguns dos pontos que os atletas precisam evoluir e que Roger Machado deve estabelecer métricas para que o Bahia consiga ter o protagonismo tão procurado.

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Jonatan Cavalcante

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