As constantes trocas de treinadores, tornam o Ceará uma grande incógnita em 2020

A alta rotatividade no comando técnico do Ceará tem dificultado o desenvolvimento e consolidação de ideias de jogo. A saída de Enderson Moreira deixa perguntas que precisam ser respondidas pelo sucessor Guto Ferreira

A medida que se consolida na Série A do Brasileiro, o Ceará vai adquirindo musculatura financeira. Os seguidos superávits nas contas do clube, apontam para um crescimento orgânico pujante. Tanto que pôde realizar contratações com altas cifras. Mas sem comprometer o fluxo de caixa. Se financeiramente, o alvinegro caminha bem, o mesmo não pode-se dizer dos processos ligados ao campo de jogo.

A convicção que sobra a Robinson de Castro para gerenciar os ativos do clube, falta na escolha do técnico. Nos últimos dois anos , o Ceará teve em sua área técnica 6 treinadores com ideias e metodologias de trabalho totalmente distintas. A atual temporada que se iniciou com Argel Fucks, teve andamento com Enderson Moreira e agora estará sob a tutela de Guto Ferreira.

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Essa miscelânea de conteúdos e de didáticas que o Ceará vive, exige dos jogadores grande capacidade de adaptação e assimilação. E por saber que cada indivíduo enxerga o mundo de forma singular, possui nível de instrução diferente, compreende e sente o jogo de maneira única, o desafio do técnico que chega ao clube com a montagem do elenco praticamente finalizada se torna ainda mais árduo. Por isso, na busca de compreender o contexto ao qual se encontra o Vozão no aspecto de ideias de jogo, o Footure vai analisar os trabalhos de Argel e Enderson e, projetar o que Guto Ferreira poderá implementar.


Jogo direto, fisicalidade no meio-campo e vitória pessoal no ataque


A contratação de Argel Fucks pelo Ceará, veio em um contexto de luta contra o rebaixamento no final da temporada passada e busca por adoção de medidas que tornassem a equipe pragmática. Ou seja, o resultado era mais importante que o desempenho. A manutenção de Argel para 2020, lhe permitiu realizar a montagem do elenco de acordo com as ideias e convicções que o fizeram treinador. As contratações efetuadas (Fernado Prass, Eduardo, Bruno Pacheco, Tiago Pagnussat, Klaus, Charles, Vinícius, R. Sóbis e Rogério) apresentaram um perfil de atleta em comum: combativo. A formação do elenco visava ter um time mais físico para exercer uma pressão agressiva ao portador da bola, vencer duelos individuais e explorar a velocidade e capacidade de drible dos atacantes.

Com isso, a equipe do Ceará optava por uma construção de jogo direta – menos elaborada -, através de uma bola longa direcionada à Charles no corredor central ou até mesmo para Leandro Carvalho na meia direita. Sempre com o intuito de vencer o duelo da 1º e 2º bola e acelerar ou se organizar no campo ofensivo. Estando no campo adversário, o Ceará atacava com os quatro jogadores de frente (Felipe, Rogério, Leandro Carvalho e Sóbis), juntamente com os dois laterais ou o lateral do setor da bola mais a chegada de um dos volantes. Ou seja, na maioria das vezes o ataque era composto por seis jogadores. Deixando os dois zagueiros, um volante e um lateral ou os dois volantes, compondo o balanço defensivo.

Ceará Argel
Argel Fucks planificou a equipe com um meio-campo de predominância física com a presença de Charles e Willian Oliveira

Defensivamente a equipe se estruturava no 4-4-2 com o meia-atacante (Felipe) se alinhando ao Sóbis. O posicionamento médio da equipe se dava em linhas baixas, estabelecendo uma pressão a partir da linha divisória do meio-campo. Os volantes Charles e Willian Oliveira eram os responsáveis por subir a pressão pelo corredor central. O tipo de marcação utilizada por Argel foi a marcação mista. Por exemplo, no jogo contra o Fortaleza, o lateral-direito Samuel Xavier perseguia Osvaldo mesmo a bola estando do outro lado. Isto é, uma referência posicional. E isso acontecia, pois Argel tem preferência que haja um embate entre lateral-ponta e ponta-lateral.

Os pecados capitais de Argel se concentraram nos problemas de profundidade e baixa produção ofensiva no âmbito do ataque. E defensivamente, devido a forma de se defender que exige bastante da parte física e diante da pouca rotação do elenco, o desgaste foi algo explícito e que acentuou as falhas no sistema defensivo.


Saída de 3, ataque posicional e meio-campo organizador


Com pouco tempo para trabalhar, Enderson Moreira optou por dar prosseguimento ao que vinha sendo feito por Argel Fucks nos primeiros jogos. Mas aos poucos foi inserindo as ideias de jogo na equipe. O meio-campo que tinha uma propensão física, passou a ser mais organizador com a entrada de Ricardinho. Além disso, a inserção do meia-atacante Vina concedeu mais profundidade, criação e poder de finalização ao Ceará. No ataque Fernando Sobral agregou capacidade de drible e finalização com maior assertividade.

Em seguida, implementou uma saída de 3-2 com Samuel Xavier sendo o jogador responsável por dar um passe de ruptura na entrelinha para Ricardinho ou no corredor direito para Leandro Carvalho. Ricardinho também poderia receber esta bola na meia direita ao realizar um movimento de diagonal curta. A entrada de Eduardo Brock além da consistência defensiva, contribuiu para que houvesse maior naturalidade na condução da bola pelo setor esquerdo.

Ceará Enderson
Com meio-campo mais organizador, a mobilidade ofensiva tornou-se uma grande arma do Ceará

Ocupando o campo ofensivo, o Ceará utilizava da amplitude total com Bruno Pacheco e Leandro Carvalho para alargar o campo. Por dentro, ficavam Sóbis e Fernando Sobral alternando entre centroavante e segundo atacante e por trás deles Vina. Os ataques posicionais do time de Enderson Moreira aconteciam com 6 jogadores. Exceto em cenários de resultado adverso e com o tempo regulamentar esgotando-se. Nestas condições, o Ceará atacava com 7 ou 8 jogadores para buscar marcar um gol.

Levando-se em consideração o time em condições normais de pressão e temperatura, o ataque se desenvolvia com o quarteto de frente mais os dois laterais ou os dois volantes ou um lateral e um volante. O processo construtivo e criativo das jogadas ofensivas aconteciam com predominância pelos corredores laterais através de apoios, passe em progressão, ultrapassagem e infiltração. E tinha como finalidade um cruzamento rasteiro, passe para trás na grande área, infiltração e finalização dentro da área ou por fim um arremate de média e longa distância. O balanço defensivo manteve o que já vinha sendo executado com Argel Fucks.

Nos 30 dias que Enderson esteve à frente do Ceará, a dinâmica defensiva sofreu poucas alterações. A plataforma e o tipo de marcação utilizadas eram as mesmas adotados pelo antecessor. A unica mudança de comportamento visível foi a busca por pressionar em linhas altas no 4-1-3-2, para roubar a bola e estando mais próximo ao gol aproveitar a desestrutura do adversário de maneira mais rápida e efetiva.

O trabalho realizado por Enderson Moreira era muito promissor e a decisão de interromper e aceitar o desafio no Cruzeiro, deixam perguntas que precisam ser respondidas pelo Guto Ferreira. O novo técnico irá dar continuidade ao que vinha sendo desenvolvido? Irá romper com o processo atual e implantará um novo? Tentará encontrar um equilíbrio entre o que acredita e o que estava sendo realizado?



O que esperar de Guto Ferreira?

As perguntas deixadas no parágrafo anterior podem começar a ser respondidas a partir do momento que o futebol brasileiro retornar. No entanto, o perfil de Guto Ferreira e o estilo de jogo adotado nos últimos clubes, sinalizam um possível caminho a ser seguido. O novo técnico do Ceará é praticante da corrente de pensamento que: ataque ganha jogos e defesa campeonato. E ao observar os dois trabalhos mais longevos e de sucesso (Internacional e Sport), nota-se que as equipes sofreram menos de 30 gols em 38 rodadas e tiveram o menor número de derrotas nas competições em disputa. O que já denota a facilidade para montar sistemas defensivos consistentes.

Ceará Sport Guto
Na temporada passada, Guto planificou uma equipe com maior propensão física e apostou no ataque direto

No trabalho mais recente, o Sport em 2019, Guto utilizou o ataque direto por não ter no elenco atletas com a capacidade de controlar e realizar uma construção por baixo. Diante de equipes que pressionavam em linhas baixas, o Sport realizava uma saída sustentada no 4-2 – laterais partcipando ativamente – para atrair e tentar explorar os espaços gerados nas costas da defesa. Porém a dificuldade de romper a segunda linha de marcação era algo gritante.

Por isso, os lançamentos longos para disputa de 1º e 2º bola foram algo comum. E a “concha” – aproximação de três jogadores no setor da bola – é fundamental para ficar com a bola e escolher entre acelerar ou se organizar no campo ofensivo e buscar um ataque posicional. Estando com a posse no campo de ataque o Sport estruturava o ataque com 5 jogadores e o lateral do setor da bola. Destaque para os atacantes Guilherme e Hernane que fizeram uma ótima dupla.

No aspecto defensivo, a marcação mista era utilizada. O que aponta para uma continuidade no que já vem sendo realizado no Ceará. O volante Charles detinha uma função importante ao ser o jogador escolhido para subir a pressão ou na transição defensiva tentar a temporização. A parceria entre técnico e jogador deverá ser reeditada.

E diferentemente do Sport, no Ceará, Guto contará com um elenco que pode lhe oferecer tanto um jogo com construção mais elaborada ou que seja mais vertical e exclua a fase de construção. Restará ao técnico pós-pandemia e com pouco tempo para trabalhar, escolher a ideia de jogo que melhor se adeque a maneira como enxerga a vida, a competição e o elenco.

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Jonatan Cavalcante

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