O dia que os EUA assistiram o show da melhor jogadora de todos os tempos, a Marta

Os Estados Unidos sempre foram fortes e favoritos nos Mundias, mas em 2007 não esperavam enfrentar a melhor jogadora de todos os tempos

Os Estados Unidos são a maior potência do futebol feminino em termos de seleção nacional. Única equipe tetracampeã do mundo e uma história regada a uma legião de grandes jogadoras e grandes conquistas. Na Copa do Mundo de 2007, porém, a maior seleção de todos os tempos assistiu de camarote um show da seleção brasileira, liderada pela melhor jogadora de todos os tempos, Marta Silva.

O narrador estadounidense JP Dellacamera declarou durante o jogo que havia muitas jogadoras extraordinárias, mas nenhuma era capaz de fazer o que a Marta fazia.

“There’s no woman player who could do this in the world”, disse após uma bela jogada da camisa 10 do Brasil já no segundo tempo, talvez prevendo um dos gols mais bonitos que a modalidade já viu e que aconteceria minutos depois. 

O narrador e a comentarista, a ex jogadora Julie Foudy, já chamavam atenção sobre como seria difícil controlar as ações da dupla de ataque brasileira, Marta e Cristiane.

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O técnico da seleção dos Estados Unidos, Greg Ryan, no pré-jogo, além de falar da preocupação com a dupla, alertou a importância de não deixar a Daniela Alves, camisa 7 e meio campista responsável por alimentar Marta e Cristiane, pensar o jogo, executar os passes, e também declarou sua admiração pela volante Formiga e o controle que ela tem do meio de campo. Ele conhecia bem as principais armas do Brasil que o fizeram atropelar a principal seleção do mundo.

Como a seleção brasileira se armou para esse jogo?

O técnico brasileiro sabia da potência que enfrentaria e adotou uma postura bastante cautelosa, formando uma linha de 5 com a Renata Costa atuando recuada entre a dupla de zaga Pelle e Tania, tendo Elaine na lateral direita e a Maycon cumprindo função de lateral esquerda. À frente dessa primeira linha defensiva, a dupla Formiga e Ester protegiam a área, e o trio ofensivo era formado por Marta, Cristiane e Daniela Alves, a terceira atuando mais centralizada com a função de acionar a dupla mortal. Quando atacava, as duas laterais se adiantavam formando um 3-5-2.

5-2-3

E a seleção americana?

A seleção estadounidense tinha como objetivo tomar as rédeas da partida. O técnico armou a equipe no 4-3-3, com a emblemática Wombach, no comando de ataque, Chalupny como a peça mais controladora do ataque e O’Rilley e Lilly tentando buscar espaço para infiltrar na muito bem postada defesa brasileira.

4-3-3

Um duelo de estratégias

Dentro do 5-2-3 brasileiro, o trio da frente (Cristiane, Marta e Daniela Alves) sem a bola, buscava pressionar a saída de jogo norte-americana. Formiga e Ester se posicionavam atrás delas para fechar as linhas de passe por dentro, e a primeira linha defensiva buscava antecipar os lances quando os Estados Unidos optavam pela bola longa para conseguir sair de trás. 

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Esse cenário foi visto repetidas vezes na partida. Os Estados Unidos com dificuldade para sair jogando a partir da pressão alta do Brasil, as defensoras brasileiras se antecipando e recuperando a posse e buscando a transição rápida para contra-atacar. 

Os Estados Unidos tentaram ter a bola durante todo o primeiro tempo, mas se viram encurralados pela forte pressão e marcação brasileira. Foram incapazes de corrigir nos primeiros 45 minutos para ser possível infiltrar na forte marcação adversária e controlar a própria linha de defesa que se posicionava muito alta e era bem explorada nas costas pelo ataque brasileiro.

A construção do placar no primeiro tempo 

A estratégia montada pelo técnico brasileiro foi muito bem absorvida e executada pelas jogadoras. As defensoras conseguiam se antecipar bem, a Pelle muito participativa na saída rápida para acelerar o contra-ataque, Formiga e Ester sabendo se posicionar para apoiar o ataque e controlar as ações adversárias quando perdiam a bola, as laterais sabendo dosar as subidas para confundir a marcação adversária, Daniela Alves com muita intensidade física para brigar por espaço, acionar a dupla de atacantes e também buscar associações no funil para ter oportunidades de finalizar. Cristiane e Marta, ambas no auge técnico e físico, conseguiam jogar com velocidade e controle de bola, buscando o um contra um e sendo muito agudas e perigosas.

Gol contra da camisa 12 dos Estados Unidos.

O primeiro gol, porém, veio de uma falha de marcação dos Estados Unidos. Formiga cobrou escanteio na pequena área e a Osborne cabeceou contra o próprio gol. A seleção estadounidense já se mostrava incomodada na partida antes do Brasil abrir o placar no minuto 19, depois se viu ainda mais nervosa e desconcentrada para ter o controle de jogo.

A ansiedade americana fazia com que tentassem muitas vezes recuperar a bola de forma afobada, fazendo muitas faltas e empilhando cartões amarelos. Foi tentando incomodar a  Formiga em uma saída de jogo brasileira que começou a construção do nosso segundo gol. A jogadora dos Estados Unidos derrubou a habilidosa Formiga que enfileirava dribles, e na cobrança dessa falta, Marta foi acionada em passe longo pela direita, controlou bem a bola e criou um espaço para finalizar entre quatro defensoras. 2×0!

A expulsão de Shannon Boxx:

Em mais um lance de transição veloz do Brasil, Cristiane se associou com Marta mas foi derrubada quando receberia a bola de volta em boas condições de avançar a área para finalizar. Foi o segundo cartão amarelo da jogadora dos Estados Unidos, expulsa nos últimos segundos da primeira etapa.

A crônica do segundo tempo

O técnico americano voltou para a segunda etapa com a Lloyd em campo, na época jovem jogadora de talento promissor, na tentativa de conseguir alguma pressão na equipe brasileira. 

A alteração, porém, pouco fez efeito, já que a seleção continuava nervosa e buscando o ataque de forma desorganizada, acumulando erros e oferecendo o campo para o Brasil construir uma goleada. Maycon, que no primeiro tempo conseguira apoiar muito bem o ataque, no segundo encontrava ainda mais liberdade, já que o meio campo dos Estados Unidos se preocupava principalmente em impedir a saída de bola qualificada da Formiga e limitar o jogo da Daniela Alves, deixando o corredor todo aberto para progressão da lateral brasileira.

Andreia Suntaque – goleira brasileira

Para equilibrar as ações de meio de campo, o técnico dos Estados Unidos sacou uma de suas atacantes e encorpou o jogo com uma volante. A equipe se tornou mais equilibrada e até conseguiu levar algum perigo ao gol de Andréia. A goleira brasileira, entretanto, fez uma partida muito segura e impediu uma possível reação norte-americana. Apesar de um time menos bagunçado, as alterações deixaram a seleção estadounidense ainda menos efetiva.

O relógio seguia contra os Estados Unidos, que a cada minuto se mostrava mais ineficiente e nervoso com a bola no pé. Em mais um lance de contra-ataque, Formiga explorou o corredor que permanecia aberto e encontrou a Cris, uma das melhores finalizadoras do futebol mundial, livre na área para ampliar o placar e fazer o terceiro gol do Brasil aos 59 minutos de jogo.

O jogo seguiu com o mesmo enredo. Os Estados Unidos tentando ensaiar uma reação, mas cometendo muitos erros e oferecendo o campo para o contra-ataque brasileiro, que perdeu muitas oportunidades de fechar a goleada. Até que no minuto 79 aconteceu um dos gols mais importantes da história da seleção brasileira. Um gol que representa a mágica do futebol brasileiro, assinado pela melhor jogadora da história, a Marta, o quarto gol do Brasil e segundo da camisa 10 no jogo.

“Não há palavras para descrever o gol de Marta” – Luciano do Valle.
Histórico da seleção dos Estados Unidos

Antes dessa partida, os Estados Unidos só havia perdido duas vezes para o Brasil. Até hoje, esse foi o pior placar sofrido pela seleção principal norte-americana na história, e culminou no encerramento de uma sequência de 51 jogos sem perder.

Os 10 minutos finais mostraram uma gigante seleção golpeada, nocauteada, entregue em campo e torcendo para que o jogo acabasse logo. Do lado brasileira, uma sequência de lances perdidos e bolas na trave.

Curiosidade polêmica

Scurry, a goleira norte-americana, foi preterida para o jogo por seu bom histórico contra o Brasil e habilidade defendendo pênalti. O técnico deixou no banco a então jovem e promissora goleira Hope Solo, que teve sua carreira na seleção encurtada devido a tantas polêmicas, mas nunca lhe faltou qualidade.

Muito chateada após a eliminação, Hope Solo foi muito dura na zona mista.

Hope Solo

“Foi uma decisão errada, e acho que quem sabe alguma coisa sobre o jogo sabe disso. Não há dúvida de que eu teria feito essas defesas. E o fato é que não é mais 2004. Não é mais 2004. E é 2007, e eu acho que você tem que viver no presente. E você não pode viver por grandes nomes. Você não pode viver no passado. Não importa o que alguém fez em um jogo olímpico de medalha de ouro nas Olimpíadas de três anos atrás. Agora é o que importa, e é isso que eu penso. ” 

melhor jogadora de todos os tempos

Marta também deu declaração polêmica sobre a postura das jogadoras dos Estados Unidos. Disse que foram infelizes ao se colocarem como favoritas na partida, como sempre fazem, e se mostrou incomodada com possíveis comentários de que as norte-americanas queriam colocar as brasileiras para baixo, mas que no final jogaram de cabeça erguida.

Com certeza esse é um dos jogos mais dolorosas da história da maior seleção de todos os tempos, e um dos mais especiais para a melhor jogadora da história, e para todos os brasileiros. A eterna goleada!

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Giselle Andreolla

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