Tuchel, Solskjaer, tropeços e realidades diferentes

Os últimos dias de United e Chelsea não foram dos mais convincentes. Mas qual é a diferença na fase das equipes?

Apesar de a história pender bastante para um lado, Manchester United e Chelsea hoje são clubes comparáveis. Ambos vêm de temporadas com proximidade na tabela, seus objetivos são os mesmos e ainda há a coincidência de terem confiado em ex-jogadores para um processo de reconstrução. Frank Lampard fez sua parte no Stamford Bridge, passou por problemas e deu espaço para Thomas Tuchel conquistar a Europa. Ole Gunnar Solskjaer também fez sua parte em Old Trafford, mas ainda está lá: seria ele o nome para dar o próximo passo ou o destino será semelhante ao do ídolo dos Blues?


As últimas partidas dos dois não foram das mais convincentes. O time de Londres emendou duas derrotas consecutivas apenas pela segunda vez sob o comando do alemão e algumas críticas um pouco mais firmes começaram a aparecer. Existem, por exemplo, pedidos para que ele deixe de lado a linha de três zagueiros e adote uma formação mais ‘solta’ com quatro defensores atrás, adicionando uma peça de ataque. 

É algo que pode ter seu sentido e suas vantagens, ainda mais considerando as vastas opções ofensivas no elenco, mas a perspectiva não pode ser tão simplista. Afinal de contas, não é como se os resultados negativos tivessem sido contra adversários fracos. Falamos de Manchester City e Juventus. Oscilações acontecem e não é saudável esperar campanhas perfeitas de qualquer equipe hoje em dia. O futebol está cada vez mais competitivo – muito por conta de aspectos táticos e físicos – e o raro é ganhar sempre. 

E, sobretudo, a atuação foi realmente ruim em somente um desses jogos. No sábado, pela Premier League, o início foi bom e a proposta para conter o ímpeto de De Bruyne e companhia era coerente, mas no fim das contas os pontos não vieram. Do outro lado estava o atual campeão inglês, finalista da Champions League, treinado por um dos melhores e maiores técnicos de todos os tempos. O ideal era ter registrado pelo menos um ponto, mas nada anormal aconteceu. 

(Foto: Reprodução/Jogada 10)

A performance em Turim trouxe um cenário pior. O comportamento não foi o que estamos acostumados a ver e ninguém gostou do que viu. A defesa não conseguiu ser dominante como vinha sendo, o meio-campo foi uma zona de erros constantes (o que complica todo o restante, pois é o coração de tudo) e o ataque estava desconectado. A comissão técnica certamente vai trabalhar para evitar que isso se repita, mas não quer dizer que mudanças bruscas precisam acontecer. Semanas ruins fazem parte. Tempo ao tempo.


Dito isso, chegamos no outro lado da moeda. O Manchester United também tropeçou, perdendo para o Aston Villa dentro de casa e desperdiçando a chance de assumir a liderança. Pelo torneio continental, só evitou mais um tropeço no último lance, através do conhecido poder de decisão de Cristiano Ronaldo. Então, em termos de resultado, viveu dias melhores que os do Chelsea. Mas a visão não pode ser simplista aqui também.

Ao contrário dos Blues, os Red Devils estão gerando preocupações constantes em termos de desempenho. Não é como se as exibições estivessem mantendo um padrão positivo e os pontos escapando de vez em quando. Desde o início da temporada, o que se vê dentro de campo é um time sem cara de time. A defesa não passa segurança, o meio-campo está sendo um problema ainda maior do que já se previa (há tempos existe uma lacuna ali) e o ataque rende em momentos, sem muita constância ou conexão.

Percebe-se uma dificuldade em criar jogadas ‘sólidas’ com frequência e os adversários não estão sofrendo como deveriam contra um plantel tão qualificado. Partidas complicadas são naturais e ninguém espera – ou não deveria – goleada toda semana, mas é preciso entregar muito mais. Imaginava-se uma continuidade no progresso apresentado em 20/21, mas os setores estão cada vez mais distantes, o posicionamento das peças não facilita e o coletivo vem sofrendo.

(Foto: Reprodução/Football 365)

A situação fica ainda mais delicada se considerarmos que Solskjaer chegou a abdicar de algumas de suas convicções e o resultado não foi legal. Contra o Villarreal, por exemplo, fez algo inimaginável na maior parte do seu trabalho: usou um 4-3-3 que não ofereceu estabilidade no centro do gramado, teve pouca agressividade sem a bola e descaracterizou a equipe.

Mesmo em outros momentos onde viveu cobranças elevadas, os problemas eram pontuais e visivelmente contornáveis com ajustes específicos. No geral, o time era um time e, apesar das críticas, coletivamente vinha conseguindo pressionar, construir e atacar. A defesa teve fases variadas. Ao menos, o staff sempre procurava solidez e equilíbrio. Performances que não empolgavam o torcedor aconteciam, mas decisões que minavam esses dois pilares eram raríssimas. 

Agora, a impressão é de que algumas das bases da filosofia estão perdidas e, somando isso com outros fatores (encaixe de novas contratações, pressão cada vez maior, dificuldades físicas de certas peças-chave, queda técnica de outras), o panorama mais preocupa do que anima. Não era essa a expectativa quando o clube que vinha em crescimento anunciou Cristiano Ronaldo, Jadon Sancho e Raphael Varane.

(Foto: Reprodução/Reuters)

O trabalho do treinador norueguês certamente não é ruim (basta lembrar do estado da instituição quando ele assumiu) e precisamos julgar a média, não o ponto mais alto ou o ponto mais baixo. Então não cabe a ideia de jogar tudo no lixo ou tratar como fracasso, mas o sinal de alerta está aceso. Bastante coisa precisa mudar, caso contrário o alerta será de emergência. 

Resumindo, Solskjaer precisa trabalhar para que De Gea e Cristiano Ronaldo não sejam os salvadores, mas sim partes importantes de um conjunto qualificado. Os holofotes estão sobre ele.

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