ENTREVISTA: Como a tecnologia e os dados estão transformando a experiência e a receita dos clubes brasileiros
O Footure Capital recebeu César Sbrighi, country manager da NewC Sport no Brasil, para um bate-papo sobre a evolução do mercado de ticketing, sócio-torcedor e a implementação da biometria facial nos estádios do futebol brasileiro
Nesta entrevista, Cesár detalhou como a NewC Sport está ajudando gigantes como Palmeiras e Atlético Mineiro a maximizar suas receitas de matchday e garantir mais segurança e tecnologia aos torcedores em seus respectivos estádios.
Confira abaixo a entrevista completa que produzimos com César Sbrighi, atual country manager da NewC Sport no Brasil:
César, como foi a chegada da NewC Sports ao mercado do futebol brasileiro?
“A nossa empresa já tem muita história em outros países, operando em seis deles. Começamos no Brasil com o Palmeiras, fazendo todo o sistema do Avante — que hoje é um dos maiores projetos de sócio-torcedor do mundo — e a parte de ingressos. Aos poucos, fomos nos adaptando à legislação e ao mercado brasileiro, “tropicalizando” o nosso produto. Além do Palmeiras, hoje também atendemos o Atlético Mineiro e o Santos”.
Quais os serviços que a Newc Sport fornece para o Palmeiras nessa parceria?
“Nós unimos o know-how que o Palmeiras já tinha ao nosso conhecimento global, já que temos dados do mundo inteiro devido à nossa atuação internacional. Quando começamos a parceria, o Palmeiras tinha 60 mil sócios-torcedores; hoje, estão com aproximadamente 200 mil, sendo uma fonte de receita gigantesca para o clube”.
““Além do sócio-torcedor, fazemos toda a parte de venda de ingressos. É uma operação complexa: vendemos mais de 40 mil ingressos por jogo para cerca de 35 jogos em casa por ano. Apenas a parte de controle de acesso (catracas) não é feita por nós lá, mas sim pelo Nubank Park”.
Sobre a precificação dos ingressos, vocês participam diretamente com o Palmeiras ou o clube define sozinho os seus respectivos preços?
“Nós ajudamos com os dados. Eles têm acesso aos dados de vendas, permitindo que mapeiem o perfil dos torcedores, as compras por jogo, por temporada e por adversário. Nossa equipe dá suporte consultivo, quando necessário, caso precisem de dados específicos. Eu mesmo já trabalhei na Copa do Mundo e na Libertadores fazendo essa parte de precificação e fico à disposição dos clubes para colaborar, se necessário”.
“Um caso muito interessante é o do Atlético Mineiro: nós passamos os dados de compras e eles os colocam em um data lake. A partir dali, usam inteligência artificial para prever o público do jogo. Com essa previsão, eles planejam a segurança, a limpeza, quais setores abrir e, claro, a precificação por setor ou assento de acordo com o perfil da partida”.
Falando sobre tecnologia, como tem sido a implementação do reconhecimento facial nos estádios e como ela se torna lucrativa para os clubes?
“Esse foi, inclusive, um dos motivos pelos quais fomos escolhidos pelo Atlético Mineiro, eles vieram de uma experiência muito ruim.. Diferente do Palmeiras, no Atlético nós fazemos o controle de acesso por biometria facial, em parceria com a Fortress, que é a maior empresa do mundo no segmento (atende NBA, NFL, Premier League e Copa do Mundo). Há também uma exigência da legislação brasileira para que estádios com mais de 20 mil lugares adotem a tecnologia”.
“O Atlético vinha de um trauma com o operador anterior na final da Copa do Brasil contra o Flamengo, onde houve invasão, o sistema parou e eles foram punidos com a perda de mando de campo de seis jogos. Isso gerou uma perda financeira enorme.
“Hoje, implementamos um sistema com a Fortress onde a leitura facial é feita nas catracas e também no perímetro externo do estádio via aparelhos handheld. Só entra nesse perímetro quem tem o ingresso e a face registrada, eliminando ingressos falsos. Dentro desse perímetro seguro, o clube faz uma fan fest com shows, ações de marketing, venda de produtos e bebidas, o que aumenta muito o faturamento. Essas informações podem ser compartilhadas com o sistema de vendas, o clube sabe o que o torcedor consumiu e pode disparar promoções personalizadas em tempo real para aumentar o consumo e melhorar a experiência do cliente, como já é feito em diversos países”.
Como a NewC Sport realiza o armazenamento e a administração desses dados e da imagem do torcedor?
“É um processo rápido e simples para o torcedor, feito pelo próprio celular dentro do aplicativo do clube. Nossa tecnologia converte a foto em dados (vetores) para enviar de forma leve e rápida para as catracas e dispositivos móveis. Sobre o armazenamento, tudo é feito sob as regras estritas da LGPD, com forte criptografia e servidores certificados para garantir total segurança”.
O quão benéfica foi a implementação da biometria facial nos estádios brasileiros?
“Mudou totalmente o ambiente, deixando-o muito mais seguro e afastando os cambistas da porta. Estou no mercado há 25 anos e já vi coisas absurdas. Para se ter uma ideia, dados de mercado de 2023 mostravam que 67% das pessoas deixavam de ir ao estádio por medo da violência. Em uma pesquisa recente da CBF, realizada após a expansão do reconhecimento facial, esse número caiu para apenas 23%. É um ganho gigante para o futebol e para a sociedade”.
O que os clubes brasileiros podem explorar ainda mais em termos de tecnologia em seus estádios?
“O marketing dos clubes ainda está aprendendo a extrair o máximo dessas plataformas e a entender a fundo o consumidor. Outro ponto crucial é a infraestrutura de Wi-Fi nos estádios. Com uma boa conexão — como a que o Atlético Mineiro tem —, o torcedor pode pedir comida pelo celular, ver replays e interagir com ações. O próprio Atlético faz um show de luzes sincronizado pelo aplicativo no celular dos torcedores, no estilo Coldplay”.
“O futuro está na Inteligência Artificial para mapear tendências. A IA pode identificar, por exemplo, quem costuma chegar uma hora antes e sugerir ações (promoções, brindes) para fazer esse público chegar três horas antes, gerando mais consumo e fortalecendo o senso de comunidade”.
No esporte americano (NFL, NBA), as ativações e a experiência do fã são referências. O futebol brasileiro já consegue caminhar nessa direção?
“Sim, os clubes brasileiros estão aprendendo rápido e criando ótimas experiências. Além dos shows de luzes do Galo e do “Green Hell” que vi no Coritiba, os clubes usam a tecnologia para fidelizar”.
“O Palmeiras faz algo muito interessante com o sistema de classificação (ranking): se você compra ingresso para os jogos e deixa a cadeira vazia sem avisar ou liberar para o clube, você perde pontos no ranking e perde a prioridade para comprar ingressos de jogos decisivos, como na Libertadores. Isso estimula a assiduidade”.
A assiduidade dos torcedores durante uma temporada completa no futebol brasileiro, é uma das grandes dores dos clubes brasileiros?
“Com certeza, é uma dor latente. Muitos clubes não têm esse controle de saber exatamente quem entrou, que horas saiu e se o assento foi de fato utilizado. Na minha época de FIFA, na Copa do Mundo, se um patrocinador comprasse um camarote e não o preenchesse, ele pagava multa em contrato”.
“Vemos isso acontecer cada vez mais no Brasil: obrigar o torcedor ou a empresa a liberar o assento caso não vá. Cadeira vazia na televisão deprecia o espetáculo e afeta diretamente a receita de patrocínio, porque o investidor quer ver o estádio pulsar. O ticketing ajuda o marketing como um todo”.
As receitas de Matchday no Brasil têm demonstrado essa evolução financeira na prática? E qual o próximo passo da Newc Sport no contexto do futebol?
“Sem dúvida. Um relatório recente da Galápagos mostrou que o faturamento de matchday no Brasil saltou de pouco mais de R$ 1 bilhão para quase R$ 2 bilhões em um intervalo de três a quatro anos. A tecnologia gera receita direta e atrai o torcedor. Clubes que ignoram isso estão perdendo dinheiro e torcedores”.
“Sobre o nosso próximo passo, estamos expandindo fortemente. Eu estou atualmente no México, e no Brasil estamos em conversas avançadas com novos clubes e grandes arenas para implementar nossa tecnologia global. O futuro do futebol brasileiro é muito positivo”.


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