A prática e a importância do futebol de rua na visão de José Boto

Em entrevista concedida ao Footure, o diretor de scouting do Shakhtar Donetsk fala, dentre outros aspectos, sobre a cultura do futebol brasileiro e o projeto do clube ucraniano

No intuito de contribuir para o debate sobre o jogo de rua e a importância do mesmo como ferramenta de desenvolvimento, o treinador André Jardine, o jornalista Paulo Vinicius Coelho e o diretor de scouting José Boto foram procurados pelo Footure FC.

Depois de publicar a matéria, o site leva ao ar, em uma série de três episódios, as conversas que teve com os personagens citados. A seguir, na íntegra, a entrevista com o português José Boto, scout do Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, que teve passagem de 12 anos pelo Benfica.

Footure: O que pensa sobre a prática do futebol de rua?

José Boto: O futebol de rua é fundamental para o desenvolvimento do talento dos jogadores. Não só de sua parte técnica, como o tamanho da sua parte cognitiva do jogo, pelo fato de não haver nenhuma diretriz, não haver adultos presentes a crerem que o jogo possa ser jogado da forma deles. Acaba por ser um fator de aprendizagem excelente e, por isso, o Brasil também ter tantos jogadores de qualidade acima da média tem muito a ver, na minha opinião, com esses fatores. Na Europa, isso não está tão presente porque, talvez, por sorte, não tenhamos tantas classes desfavorecidas, mas, por outro lado, porque a pressão das grandes cidades não dá espaço para que os filhos, sozinhos, na rua, brinquem e, nesse caso, joguem futebol.

Nós temos uma pessoa, em Portugal, que é reconhecida mundialmente, que é o Vítor Frade. Ele tem uma frase e eu costumo repetir muito: “O futebol não se ensina, o futebol se aprende”. E essa é uma frase que tem muito a ver com isso tudo que estamos falando agora, porque o futebol pode ser jogado de diversas formas e, quando nós estamos a ensinar, normalmente estamos a ensinar o nosso futebol, aquilo que é o nosso entendimento do jogo. A rua nos dá a tentativa e erro, que é um dos fatores de crescimentos seja a área que for. É o deixar errar para aprender, e a rua nos dá isso. Nós podemos errar, não temos ninguém a cobrar do nosso erro e, por isso, o futebol de rua será algo tão importante.

Até que ponto um jogo sem regras e limitações favorece?

O futebol de rua favorece porque te dá criatividade, te dá experimentação. Te dá a sabedoria de com quem está a jogar, sem influência dos adultos. Porque, para mim, mais importante do que as regras do jogo, o que não há é uma influência dos adultos naquilo que é a percepção do jogo.

Como não há cobrança do erro, o jogador não tem problema nenhum em errar, experimentar, tentar e voltar a tentar. Isso não se passa quando há a presença do treinador adulto, que é sempre aquela cobrança do erro – não há em todos, mas nós sabemos que a maior parte dos treinadores da base querem replicar aquilo que é o futebol profissional.

Além do Brasil, outros países são beneficiados pelo futebol de rua?

Não, até porque não podemos dizer que é só a questão do futebol de rua. Tem outra questão importante, que é o quadro de referências, ou seja, quem é que os jovens imitam? O fato de os jogadores brasileiros, que são jogadores criativos, tecnicamente muito fortes, faz com que os jovens tentem imitar isso. Tu não extrai tanto jogador como extrai do Brasil, e isso tem muito a ver com o quadro de referências.

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Buscando o quadro de referências dos uruguaios, não é o mesmo que o dos brasileiros. Os brasileiros querem imitar o Neymar e os jovens do Uruguai querem imitar o Suárez. O fato de você ter um quadro de referências mais técnico, mais criativo, é igualmente muito importante ou tão importante como é jogar na rua. Nós temos essa experiência, por exemplo, na Ucrânia, que, historicamente, os jogadores não são dotados tecnicamente, mas as últimas gerações, muito por influência dos brasileiros que jogam no Shakhtar, estão fazendo com que apareça uma geração de jogadores mais técnicos do que existia uns anos atrás. Portanto, essa questão, para mim, também é fundamental.

Qual a sua ligação com o futebol brasileiro? Por que a grande procura do Shakhtar Donetsk por brasileiros?

Há uma questão histórica e cultural, no Shakhtar, com os jogadores brasileiros. Há 15 anos, o Shakhtar começou a trazer alguns jogadores brasileiros de uma forma não pensada, ou seja, não era uma questão estratégica, foi uma questão conjuntural, mas o sucesso desses jogadores fez com que passasse a ser uma estratégia porque não só esses jogadores se adaptam perfeitamente àquilo que são as ideias do Shakhtar, que é um futebol ofensivo, um futebol criativo. Os jogadores brasileiros têm essas características que se adaptam ao estilo de jogo, mas, por outro lado, ao longo dos anos, o Shakhtar foi percebendo que o fato de termos uma história com os jogadores brasileiros, que depois tenha sucesso desportivo e, ainda, do Shakhtar saem para grandes clubes europeus, faz com que o mercado brasileiro seja um mercado aberto.

Eu passei 12 anos no Benfica e, quando cheguei ao Shakhtar, percebi claramente o porquê da aposta em brasileiros. E, dando um exemplo, o Shakhtar consegue, no Brasil, ir buscar jogadores da Seleção Olímpica sem muitas dificuldades. Os jogadores estão perfeitamente abertos a irem jogar pelo Shakhtar. E estão abertos porque sabem que é uma boa porta de entrada na Europa, sabem que o Shakhtar recebe bem esses jogadores. Por outro lado, eu não consigo ir buscar, em Portugal ou Espanha, o mesmo tipo de qualidade.

Com o crescimento exponencial da tecnologia no futebol, como seguir encontrando jogadores dentro das periferias antes de scouts e times europeus?

Por isso que, se calhar, o Brasil tem 1.600 jogadores espalhados pelo mundo inteiro e outros países nem a metade chegam. Essa é uma discussão grande, mas o Brasil, por causa de características sociais e culturais, tem muito presente da “miséria” e, por isso, produz tantos jogadores. Nós não conseguimos encontrar nenhum país, a nível mundial, que consegue fazer duas seleções só com jogadores de fora do Brasil. Isso diz muito daquilo que é a produção dos jogadores e talentos no futebol brasileiro.

José Boto
Após potencializar o scouting do Benfica e revolucionar a análise de mercado do Shakhtar, Boto tornou-se referência mundial (Foto: Shakhtar Donetsk)

Como aliar o poder da tecnologia com a vontade de jogar futebol?

Isso é um problema gravíssimo. Há pouco tempo, o Pablo Aimar disse algo que eu fixei bastante, em que ele diz: “Eu sou a última geração que via jogos completos”. Porque, hoje, os jovens tem muita dificuldade em assistir ao jogo durante 90 minutos, preferem ver um resumo, ver os gols, do que estarem sentados vendo um jogo inteiro. Isso tem, como é óbvio, graves problemas para a prática do futebol porque, se tu prefere estar em casa jogando PlayStation ou olhando os resumos dos jogos do que estar na rua jogando ou vendo um jogo inteiro, isso vai refletir naquilo que é o teu gosto pelo jogo.

Hoje, as pessoas estão mais interessadas naquilo que é a parte acessória do jogo, as vidas dos futebolistas, quanto é que eles ganham, as roupas que eles usam, os carros que eles têm do que propriamente em jogarem como eles. Esse é um problema grande, mas, também, é um problema da sociedade, não é um problema exclusivo do futebol. E que não é de fácil resolução. O jogo perdeu alguma da sua beleza muito devido aos modelos ultradefensivos, jogadores muito formatados e pouco criativos e, como é óbvio, isso também tira o interesse do próprio jogo. Passará muito por todos nós, que estamos ligados ao futebol, fazer um esforço para tornar o produto de jogo mais atrativo.

Escolinhas de futebol substituem o futebol de rua?

Não. É a minha opinião e que, também, é a opinião de muitos especialistas. Eu não sei se vocês sabem ou se já viram a decisão que o Bayern tomou de acabar com os escalões de sub-9, sub-8 e sub-7 porque acha que o fato de tentar especializar as crianças desde muito cedo não é benéfico não só para o conhecimento deles como crianças e, especialmente, para o crescimento como jogadores. O fato de não lhes dar espaço e tempo para eles conhecerem outras atividades físicas, de estarem muito pendentes de adultos e treinadores, chegaram à conclusão de que não é benéfico para o crescimento da criança como jogador.

No início da década, a França intensificou a prática do futebol nos subúrbios. Na última Copa, 8 dos 23 convocados foram criados nas periferias, como Mbappé, Pogba e Kanté. Vencer a Copa foi coincidência ou consequência?

É consequência, até porque o modelo de formação francês sempre foi um modelo muito rico naquilo que era o desenvolvimento dos jogadores. Foi, até ganharem a Copa de 98 e a Eurocopa de 2000, com aquele projeto de Claire Fontaine, que era espetacular, em que não havia competição até os 14 anos para que os jovens tivessem a melhor liberdade. Nos últimos anos, eles tiveram essa visão de perceberem, como tem muita “miséria” nos subúrbios das grandes cidades da França, que um projeto bem alicerçado, de trazer esses jovens para a prática do futebol, poderia ser benéfico para a nível social, mas, também, benéfico a nível do próprio futebol.

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