O QUE ESPERAR TATICAMENTE DE CLARENCE SEEDORF NO CORINTHIANS
Avaliamos os últimos trabalhos de Seedorf como treinador e tentamos projetar como o Corinthians poderá atuar
Clarence Seedorf foi anunciado como novo treinador do Corinthians, que está em crise e somando oito derrotas seguidas no Campeonato Brasileiro. Pelo contexto, chamou a atenção a escolha de um técnico europeu no qual não trabalha desde 2019, quando treinou a Seleção Camaronesa. Antes disso, treinou apenas Milan, Shenzhen e Deportivo La Coruña (onde não evitou o rebaixamento do clube espanhol).
Taticamente falando, no Milan, em 2014, Seedorf procurou estabelecer um modelo de ataque posicional a partir do 4-2-3-1. No Deportivo La Coruña, em 2018, recorreu a diferentes estruturas, incluindo o 4-4-2 em losango, para tentar recuperar uma equipe ameaçada pelo rebaixamento. Já em Camarões, entre 2018 e 2019, precisou adaptar suas ideias ao futebol de seleções, com menos tempo de treinamento e características distintas de jogadores.
COMO JOGAM OS TIMES DE SEEDORF?
A característica mais importante de Seedorf é a tentativa de combinar liberdade criativa no ataque com organização coletiva. Ele não demonstrou apego absoluto a um único desenho tático. O 4-2-3-1 do Milan, o 4-4-2 em losango do Deportivo e as mudanças entre linha de quatro e linha de três em Camarões revelam um treinador disposto a modificar a estrutura conforme os recursos disponíveis e o adversário.
Em entrevista à Coaches’ Voice publicada pelo The Guardian, Seedorf destacou a importância dos jogadores talentosos e da criatividade individual, além da necessidade de adaptar sua metodologia ao pouco tempo disponível no futebol de seleções.
OS CINCO PRINCÍPIOS TÁTICOS DE SEEDORF
Construção e circulação: Procura conectar os setores por meio de passes curtos, aproximações e apoios, sem depender exclusivamente de lançamentos verticais;
Superioridade por dentro: Utiliza meias, interiores e jogadores que saem dos corredores para criar linhas de passe e associações nos espaços entre as linhas adversárias;
Liberdade no último terço: Busca dar autonomia aos jogadores criativos para se movimentarem, trocarem de posição e atacarem os espaços;
Organização para proteger a equipe: Precisa equilibrar os jogadores que avançam com aqueles que garantem a cobertura preventiva, a proteção central e a defesa das transições;
Flexibilidade estrutural: Alterna sistemas e funções de acordo com o contexto, podendo utilizar meias por dentro, dois atacantes ou alas para dar amplitude;
COMO FOI O TRABALHO NO MILAN (ESTRUTURA 4-2-3-1)
Seedorf procurou aumentar a qualidade do ataque posicional e a participação dos jogadores criativos. A principal dificuldade era fazer com que a liberdade ofensiva não comprometesse a ocupação racional dos espaços. Foram 22 jogos, 11 vitórias, dois empates e nove derrotas.
Pontos fortes:
– Combinações curtas entre os meias e criação de linhas de passe por dentro.
– Possibilidade de gerar superioridade numérica no último terço.
– Liberdade para Kaká e outros jogadores técnicos explorarem espaços entre as linhas.
– Capacidade de acelerar o ataque quando a circulação encontra o jogador livre.
Pontos fracos:
– Dependência do equilíbrio oferecido pelos dois volantes.
– Risco de congestionamento central quando centroavante e meias recuam simultaneamente.
– Espaços nas costas dos laterais durante as transições defensivas.
– Dificuldade de transformar a presença ofensiva em profundidade constante.
O USO DO LOSANGO NO LA CORUNA (4-4-2)
O losango (sistema mais utilizado) oferecia uma alternativa para conectar o meio-campo e os atacantes em uma equipe que precisava recuperar organização e confiança, já que brigava contra o rebaixamento. A contrapartida era a exigência física e tática sobre os interiores e laterais, sobretudo na recomposição defensiva, o que prejudicou o desempenho. Foram 16 jogos, duas vitórias, seis empates e nove derrotas.
Pontos fortes:
– Quatro jogadores no meio-campo para construir superioridade central.
– Dois atacantes para oferecer apoio, profundidade e presença na área.
– Possibilidade de explorar passes verticais e combinações pelo corredor central.
– Laterais como fontes de amplitude e de cruzamentos.
Pontos fracos:
– Dependência dos laterais para dar largura ao ataque.
– Vulnerabilidade potencial nas transições pelos corredores externos.
– Grande carga defensiva sobre o volante e os interiores.
– Risco de isolamento dos atacantes contra defesas compactas.
ALTERNÂNCIA DE ESTRUTURAS NO TRABALHO EM CAMARÕES
Seedorf procurou adaptar o sistema ao contexto de seleções, alternando construção, jogo direto e amplitude pelos alas. A principal dificuldade foi encontrar continuidade coletiva em meio às mudanças de estrutura e escalação. Foram apenas 12 jogos e apenas quatro vitórias.
Pontos fortes:
– Flexibilidade para atuar com linha de quatro ou de três zagueiros.
– Possibilidade de explorar a força física e a profundidade dos atacantes.
– Uso da amplitude dos alas para cruzamentos e situações de um contra um.
– Capacidade de adaptar o desenho ao adversário e ao perfil dos jogadores disponíveis.
Pontos fracos:
– Mudanças frequentes que podem prejudicar os automatismos coletivos.
– Dificuldade de construir por dentro diante de uma pressão bem organizada.
– Espaços entre meio-campo e defesa quando a primeira pressão é superada.
– Dependência da eficiência nos duelos e nas bolas cruzadas em determinadas configurações.
SEEDORF DARÁ CERTO NO CORINTHIANS?
É talvez a maior aposta do Corinthians neste século se tratando de um treinador. O lado bom é que se trata de um nome que não se apega a um só sistema, pode variar até mesmo para uma linha com três zagueiros. Porém, os resultados ruins e o fato de não estar empregado desde 2019, faz com que essa aposta em Seedorf seja mais perigosa do que esperançosa.

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